Um levantamento coordenado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP revela um cenário preocupante de hostilidade contra mulheres muçulmanas no Brasil.
Sob a liderança da antropóloga e professora Francirosy Campos Barbosa, o terceiro relatório sobre islamofobia no país reuniu dados entre janeiro e março de 2026, consolidando um diagnóstico de violência que transita entre ofensas verbais e agressões físicas severas.
A partir da participação de 328 entrevistadas, o estudo revelou que 92,2% das mulheres acreditam que a discriminação é uma realidade nacional, enquanto 80,4% afirmam já ter sentido o preconceito na própria pele.
A maioria das participantes (82,3%) é composta por brasileiras "revertidas", termo usado para quem adotou o Islã após ter sido criada em outras tradições. Para esse grupo, segundo a pesquisa, a violência muitas vezes começa dentro de casa.
Falta de compreensão
A falta de compreensão dos familiares sobre a nova fé gera conflitos domésticos profundos. Segundo a professora Francirosy, o estigma social e os estereótipos alimentam essa rejeição familiar, especialmente quando a transição religiosa se torna visível através das vestimentas e hábitos cotidianos.
O uso do véu, ou hijab, é identificado pelo estudo como um forte marcador de identidade que acaba por aumentar a vulnerabilidade das fiéis. Embora o adereço seja uma expressão de fé, ele serve como alvo para agressores. Relatos colhidos pela USP descrevem episódios traumáticos, como tentativas de retirada forçada do véu em transportes públicos, apedrejamentos e revistas abusivas em instituições.
A pesquisa indica que a exposição é tamanha que algumas mulheres optam por abandonar o uso do hijab no Brasil por receio de represálias.
Casos de perseguição profissional também foram registrados, evidenciando que a identidade religiosa pode se tornar uma barreira para a empregabilidade e para o convívio acadêmico ou social.
Descrença na Justiça
Um dos pontos mais sensíveis levantados é a alta taxa de subnotificação dos crimes. A maioria das vítimas prefere não formalizar denúncias por descrédito nas instituições e pelo medo da impunidade.
O relatório aponta que a dificuldade em produzir provas em agressões ocorridas em locais públicos desencoraja a busca por suporte jurídico.
Mesmo sem a violência física direta, o impacto psicológico reforça a urgência de políticas voltadas ao combate à intolerância religiosa e acolhimento dessas mulheres.