Documentos mostram pedido à Cacau Show, compra paralela com verba pública e indícios de distribuição em outros municípios em nome da primeira-dama
Documentos obtidos pelo Correio da Manhã mostram pedido formal de doação ao Instituto Cacau Show, compra paralela com dinheiro público e indícios de distribuição de parte dos itens em outros municípios em nome da primeira-dama
Uma série de documentos obtidos pelo Correio da Manhã levanta questionamentos sobre a destinação de ovos de Páscoa recebidos pela Prefeitura de Araçariguama e aponta possível uso político de doações que deveriam atender famílias em situação de vulnerabilidade social no município.
A apuração revela que a administração municipal formalizou pedido ao Instituto Cacau Show para a doação de ovos de Páscoa destinados às crianças carentes da cidade. Em ofício datado de 20 de janeiro de 2026, o Fundo Social de Solidariedade solicitou 7 mil unidades à empresa para repasse às crianças na Páscoa deste ano.
No documento, assinado pelo prefeito Rodrigo Andrade e pela presidente do Fundo Social e primeira-dama da cidade, Mirelle Fabiana Trevisan, a prefeitura afirma que atende "todas as famílias em situação de vulnerabilidade" e solicita a colaboração para a ação social. O texto registra expressamente o objetivo da doação: "serem repassados às nossas crianças na Páscoa de 2026".
Posteriormente, em novo ofício, de 20 de março, a Secretaria de Desenvolvimento Social informa ao Instituto a retirada de 5.016 ovos, quantidade efetivamente liberada pela entidade para o município.
Em nota enviada ao Correio da Manhã, o Instituto Cacau Show confirmou a operação e detalhou a doação. "Neste ano recebemos um pedido formal da Prefeitura Municipal de Araçariguama, pedido este que foi atendido, mediante a doação de 5016 unidades de ovos de Páscoa. Esses ovos de Páscoa foram doados para a Prefeitura, para que ela realizasse a devida distribuição aos munícipes carentes", informou a instituição.
O Instituto também ressaltou que não tem como se manifestar sobre o destino final dos itens, mas lamentou eventual desvio de finalidade. "Não podemos nos manifestar sobre eventual desvio de finalidade na distribuição dos ovos de Páscoa, o que deve ser feito pelos órgãos de controle competentes. Podemos, entretanto, lamentar tal atitude se, de fato, ela ocorreu", diz outro trecho da nota.
Compra paralela com dinheiro público
A apuração do Correio da Manhã identificou ainda que, paralelamente à doação recebida, a Prefeitura de Araçariguama realizou uma compra pública de ovos de Páscoa.
O termo de autorização da contratação, datado também de 20 de março de 2026, mostra a adesão a uma ata de registro de preços para a aquisição de ovos destinados aos alunos regularmente matriculados na Rede Municipal de Ensino, no valor de R$ 145.380,88.
O extrato da contratação confirma que a compra foi celebrada com a empresa NTB Comercial de Alimentos Ltda., pelo período de 30 dias, para abastecer a rede municipal.
É justamente neste ponto que a denúncia ganha gravidade: vídeos publicados pelo próprio prefeito mostram a entrega de ovos aos alunos das escolas municipais. Segundo a apuração, as imagens exibem, inclusive, referências aos ovos da Cacau Show, mas os produtos efetivamente entregues e que aparecem nas mãos das crianças são, majoritariamente, os ovos adquiridos com recursos públicos. Vale ressaltar que Rodrigo Andrade, em trecho das imagens divulgadas em suas redes sociais, agradece ao instituto por contribuir com a entrega para os alunos.
A pergunta que surge é direta: onde foram parar os 5.016 ovos doados pelo Instituto Cacau Show?
Indícios de distribuição em outros municípios
De acordo com a investigação do Correio da Manhã, há vídeos e fotos indicando que parte significativa dos ovos doados não permaneceu em Araçariguama. O material apurado aponta entregas em outros municípios da região, como São Roque, Ibiúna e Cajamar, realizadas em nome da primeira-dama, que assina um dos documentos como presidente do Fundo Social e é apontada como possível candidata a deputada estadual.
Em alguns vídeos, pessoas aparecem realizando as entregas e, ao final, agradecem nominalmente à primeira-dama. Em outros, o seu perfil é mencionado. As distribuições, segundo o material reunido pela reportagem, não teriam se limitado a crianças, alcançando também adultos.
Caso confirmada, a situação indica que itens solicitados formalmente para a população carente de Araçariguama teriam sido utilizados fora da finalidade original, enquanto a maior parte dos estudantes do município receberam os ovos comprados pela prefeitura.
A situação levanta dúvidas sobre possível desvio de finalidade de bens destinados à assistência social, além de eventual promoção pessoal e eleitoral.
Em manifestação exclusiva ao Correio da Manhã, o advogado Márlon Reis, um dos criadores da Lei da Ficha Limpa, classificou o caso como juridicamente grave. "A meu ver, os fatos narrados revelam, com bastante nitidez, uma combinação de ilícitos eleitorais e, em tese, também possíveis atos de improbidade administrativa e até crimes contra a administração pública, a depender do que vier a ser comprovado pelas investigações", afirmou.
Márlon Reis destacou que a legislação eleitoral proíbe a vinculação de agentes políticos à distribuição de benefícios materiais em contexto de pré-campanha. "A pré-campanha não pode ser usada como espaço para a distribuição de bens, vantagens ou benefícios materiais ao eleitorado", disse.
Em outro trecho, ele reforça que o problema extrapola a esfera eleitoral. "Se bens recebidos pelo município foram utilizados para impulsionar a imagem de uma pessoa em plena pré-campanha, o problema deixa de ser apenas eleitoral e passa a atingir também a integridade da administração pública".
O jurista também chama atenção para a compra simultânea feita pela prefeitura. "Se o poder público, paralelamente, realiza compra com dinheiro público para suprir a distribuição oficial, surgem indícios que merecem apuração minuciosa quanto à regularidade administrativa, à motivação dos atos praticados e ao eventual favorecimento político decorrente da operação".
Para ele, o caso exige atuação do Ministério Público em diferentes frentes. "Entendo ser indispensável a atuação do Ministério Público em mais de uma frente: na esfera eleitoral, para examinar eventual propaganda irregular, abuso de poder ou outras infrações próprias do processo político; e também na área de defesa do patrimônio público, para apurar possível desvio de finalidade, improbidade administrativa e eventual prática criminal ligada ao uso indevido de bens e recursos públicos", concluiu.
O Correio da Manhã tentou contato, através de e-mail e telefone com a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Araçariguama e também por e-mail com a primeira-dama para esclarecimentos. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.