Por Maria Fernanda Esmeriz
A luz ultravioleta pode ser a nova arma do agronegócio brasileiro contra perdas bilionárias. Pesquisadores da Embrapa Instrumentação, em São Carlos, desenvolveram o LumiBot, robô autônomo que detecta doenças na cotonicultura e sojicultura — plantações de algodão e soja — antes mesmo que os sintomas apareçam a olho nu.
Inteligência artificial
A tecnologia emite raios ultravioletas sobre as folhas e usa câmeras de alta precisão para capturar a fluorescência que a planta emite de volta. Em apenas sete segundos, o robô analisa a reação da luz na planta e compara as imagens com milhares de outras para o diagnóstico.
A pesquisadora Débora Milori, coordenadora do estudo, explicou que o LumiBot não "vê" só aparência, mas lê sinais bioquímicos da planta. "A fluorescência induzida por luz permite identificar alterações fisiológicas bem no começo, quando a planta ainda parece 'normal' para o olho humano e até para muitas câmeras convencionais.", diz.
Inimigo invisível
O foco do trabalho são os nematoides, vermes microscópicos abundantes no solo, água doce e salgada e muitas vezes são parasitas de animais, insetos e também de plantas, segundo a Embrapa. Este grupo de pragas atacam as raízes de plantas provocando alteração de metabolismo, estresse oxidativo, mudanças em pigmentos e em compostos de defesa.
Quase impossíveis de se ver a olho nu, os nematoides causam um grande prejuízo. De acordo com infromações da Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN), Syngenta e consultoria Agroconsult, por ano, são R$ 27 bilhões de perda na soja e R$ 4 bilhões de perda no algodão.
Produtores rurais
Atualmente, o controle é difícil porque, quando os sintomas aparecem nas folhas, o dano nas raízes já é grande. O LumiBot quebra esse ciclo ao detectar a infestação precocemente.
Assim, o ganho real é antecipar a tomada de decisão. Segundo Débora, o produtor não precisa aplicar defensivos em toda a planta, mas direcionar o manejo apenas onde precisa — reduzindo custo, desperdício e impacto ambiental.
O diagnóstico precoce, ademais, evita possíveis quedas na produtividade por atraso na intervenção e protege o potencial de rendimento, especialmente em áreas com histórico de nematoide.
A pesquisadora afirma que a tecnologia é flexível: ela "lê" a saúde da planta, então pode ser adaptada para outras culturas e problemas. Porém, cada planta e cada praga têm uma "digital" única. Por isso, para expandir o uso, serão necessários novos testes e treinamentos específicos para a inteligência artificial. O plano é avançar para novos cultivos e desafios do campo, sempre com testes rigorosos para garantir que o robô funcione com precisão na vida real, fora dos laboratórios.
Luz ambiente
Os testes com o LumiBot foram feitos em casa de vegetação e à noite. Questionada sobre os principais desafios para levar essa tecnologia para o campo aberto sob a luz do sol, Débora contou que, para essas condições, são fundamentais as soluções de engenharia, como controle de iluminação, filtros ópticos, etc.
Na verdade, os trabalhos realizados no período noturno têm abordagem interessante, como a própria pesquisadora contou: "imaginamos que o monitoramento possa ser incorporado como uma rotina noturna da fazenda, realizada por robôs autônomos, com apenas poucos operadores organizando o processo". A ausência da luz solar deixa o sinal mais estável e aumenta a qualidade do diagnóstico. Portanto, o que poderia parecer uma limitação, pode se tornar, na prática, uma vantagem operacional.
Expectativas
Quanto aos próximos passos, os pesquisadores buscam validar o robô em diferentes safras, ampliar a base de dados com novas culturas e integrar tudo a plataformas digitais de manejo, garantindo que a inovação chegue de fato às mãos do produtor rural.