A Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), da Unesp, deu um passo histórico para a ciência brasileira ao inaugurar o primeiro biotério de peixes da espécie zebrafish (popularmente conhecidos como "paulistinhas"). A unidade destaca-se por ser a pioneira na instituição a produzir animais com o rigoroso status sanitário SPF, o que garante que os peixes sejam criados totalmente livres de doenças ou patógenos específicos, elevando a confiabilidade das pesquisas.
O centro recebeu um investimento de R$ 2 milhões da Fapesp recentemente. Esse recurso está sendo aplicado na modernização das instalações para cumprir todas as normas do Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (Concea). Com essa reforma, a Unesp se equipara a centros de excelência global, como o Instituto Butantan, transformando-se em um polo de cooperação que une cientistas de diversas faculdades de Botucatu e de outras instituições paulistas.
Modelo ideal
O zebrafish, um pequeno peixe de água doce com comprimento de apenas 5 cm e corpo listrado, tornou-se o protagonista dos laboratórios modernos. O motivo é uma semelhança surpreendente com os seres humanos: compartilhamos 71% do nosso material genético com ele. Essa proximidade biológica faz com que o peixe reaja de forma muito parecida ao homem quando exposto a novos medicamentos ou substâncias tóxicas, tornando-o ideal para testes de segurança e eficácia antes de experimentos com humanos.
Além da utilidade médica, o paulistinha é um termômetro para o meio ambiente. Como ocupa um lugar central na natureza, qualquer dano sofrido por ele indica um risco para todo o ecossistema. Essa característica reforça o conceito de "Saúde Única", que defende que o bem-estar dos humanos, dos animais e da natureza está interligado. Assim, o biotério de Botucatu serve tanto para a medicina quanto para a proteção ambiental.
Ciência sustentável
Uma das maiores vantagens do zebrafish é o impacto ético e econômico. Diferente dos camundongos, que ainda são os animais mais usados na ciência, o peixe paulistinha é muito mais barato de manter — custando cerca de dez vezes menos por dia. Além disso, ele é transparente durante o crescimento, o que permite que os cientistas observem o desenvolvimento de seus órgãos internos sem a necessidade de sacrificar o animal, reduzindo drasticamente o sofrimento envolvido nas pesquisas.
Outro ponto importante é a rapidez: um casal de peixes pode gerar centenas de ovos semanalmente, e em apenas dois dias os filhotes já eclodem. Por terem um sistema nervoso simplificado nos primeiros dias de vida, muitos testes realizados nessa fase inicial são classificados como métodos alternativos, poupando animais adultos. Devido a essa eficiência, a expectativa é que agências reguladoras, como a Anvisa, passem a aceitar cada vez mais os resultados obtidos com essa espécie.
Avanço
A estrutura renovada terá um papel fundamental no desenvolvimento de novos produtos nacionais. O local dará suporte, por exemplo, à fábrica-escola de biofármacos da Unesp, que trabalha em inovações como um selante cicatrizante e um soro contra picadas de abelhas. Antes de chegarem ao mercado, esses produtos precisam passar por rigorosos testes de toxicologia para garantir que não causem efeitos colaterais nos pacientes.
Além da área da saúde, o setor agrícola também será beneficiado. Pesquisadores da Faculdade de Ciências Agronômicas pretendem utilizar o zebrafish para avaliar a segurança de novos defensivos agrícolas, garantindo que os insumos usados nas lavouras não prejudiquem a vida aquática ou a saúde pública. Essa união de esforços entre diferentes áreas da ciência coloca a Unesp na fronteira do conhecimento tecnológico, promovendo uma pesquisa mais rápida, barata e ética.