Por Maria Fernanda Esmeriz
Uma pesquisa do Centro de Ciência Translacional e Desenvolvimento de Biofármacos (CTS), sediado no campus da Unesp de Botucatu, desenvolve anticorpos monoclonais — isto é, feitos em laboratório para "atacar" um alvo específico — que possam neutralizar diferentes variantes do SARS-CoV-2, vírus da covid-19.
Os chamados anticorpos monoclonais, de acordo com o Instituto Butantan, são uma classe de medicamentos feitos a partir de diferentes tecnologias que identificam a sequência genética e tratam doenças infecciosas e autoimunes. Uma das grandes vantagens do uso de anticorpos monoclonais em doenças infecciosas é a sua segurança, expressada na precisão em envolver e eliminar patógenos.
O nosso corpo produz anticorpos naturalmente quando encontra um vírus. Os monoclonais fazem a mesma coisa, só que são fabricados fora do organismo, em grande quantidade, e todos iguais, por isso o nome monoclonais. No caso da Covid-19, esses anticorpos podem impedir o vírus de entrar nas células, ajudando a prevenir ou tratar a infecção.
Pesquisa
Intitulada "Avaliação de anticorpos monoclonais anti-SARS-CoV-2 com capacidade amplamente neutralizante obtidos por phage display", a pesquisa é tema do doutorado de Hernan Hermes Monteiro da Costa, pesquisador do CTS. O trabalho foi realizado no exterior, no Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York (EUA), e conta com apoio da FAPESP e orientação de Carlos Roberto Prudencio, pesquisador do Centro de Imunologia do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo.
Costa diz que sua pesquisa é conduzida com o objetivo de obter anticorpos monoclonais que possam ser utilizados em imunoterapias contra o vírus, ou seja, em casos onde as vacinas não geraram uma proteção eficaz e duradoura, como em idosos, pessoas com diversas comorbidades ou imunossuprimidas.
Metodologia
Para testar os anticorpos, Costa utiliza uma técnica da biologia molecular chamada phage display, ou exibição de fagos. Segundo ele, ela funciona como uma grande "seleção natural" de moléculas. "Para fazer essa seleção é preciso inserir em um bacteriófago (um vírus que infecta bactérias) a sequência de DNA que codifica os anticorpos humanos obtidos do repertório natural de uma pessoa", explicou. Assim, é possível capturar aqueles que expressam os anticorpos com maior afinidade às proteínas de SARS-CoV-2.
O phage display foi utilizado para encontrar, de forma rápida e precisa, moléculas que reconhecem um alvo específico relacionado à covid-19. "Em vez de testar várias possibilidades uma por uma, o que demandaria muito tempo, o phage display permite avaliar milhões de candidatos ao mesmo tempo e selecionar apenas os que realmente funcionam. Isso torna a pesquisa mais econômica e mais confiável", afirma.
Resultados até agora
Foi testada a capacidade neutralizante de oito anticorpos. Desses oito, quatro demonstraram resultado positivo, ou seja, demonstraram aptidão em reconhecer e bloquear a infecção por diversas variantes de SARS-CoV-2. Foram realizados testes em cultura de células in vitro e em camundongos.
Visão futura
"A pandemia nos mostrou que o tempo é um fator decisivo na área da saúde", ressaltou Costa. Com a pandemia de covid-19, ganharam ainda mais destaque os conhecimentos levados à população por meio de pesquisas envolvendo testes, vacinas e medicamentos.
Segundo conta o pesquisador, o projeto contribui diretamente para esse avanço ao desenvolver métodos e ferramentas que tornam a descoberta de biofármacos mais ágil e eficiente, fortalecendo a capacidade do país de responder a futuras emergências sanitárias com maior preparo e autonomia nas etapas seguintes.