O líquido de cintilação é uma solução usada em pesquisas científicas e na medicina nuclear, composta de um solvente orgânico e radioisótopos [átomos instáveis de um elemento]. Sua função é emitir luz quando entra em contato com radiação. Esse processo pode ser utilizado, por exemplo, em técnicas de dosagem de hormônios, principalmente esteroides, como o cortisol.
Entretanto, não há um efeito colateral: o uso desse líquido gera resíduos com elementos radioativos, que precisam de tratamento especial para não oferecer riscos ao meio ambiente e à saúde. A Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFRP) de Ribeirão Preto da USP inaugurou um laboratório dedicado ao tratamento desses resíduos. É a primeira unidade no País com espaço exclusivo para lidar com materiais radioativos, onde as misturas de solventes e radioisótopos passam por processos de destilação e purificação para terem um destino seguro.
O novo laboratório vai receber e processar os materiais de outras unidades da USP e externas, reduzindo o volume de rejeito enviado ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) em São Paulo. O espaço está em processo de licenciamento ambiental e deve começar a operar ainda neste mês de janeiro.
Diferencial
O principal diferencial do tratamento proposto pela FCFRP, em relação aos métodos tradicionais compostos pela evaporação e solidificação do material, reside na recuperação e purificação do solvente orgânico, utilizado no líquido de cintilação, para reutilização na cadeia produtiva.
No processo, explica o químico Danilo Vitorino dos Santos, um dos responsáveis pelo projeto, "o solvente [tolueno] é aquecido até se transformar em vapor e, na coluna de destilação, o aquecimento e resfriamento sucessivos ocorrem centenas de vezes simultaneamente, até que ele é separado dos demais componentes e volta ao estado líquido, com a diminuição da temperatura no condensador".
Como resultado, restam dois produtos: uma borra de material radioativo, com redução superior a 90% do volume original, que segue para armazenamento definitivo sob responsabilidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); e o tolueno ultrapuro, pronto para ser reutilizado em diferentes setores, como na produção de tintas, colas, resinas, espumas, nylon, o plástico PET, aditivos de combustíveis e em sínteses químicas diversas, incluindo o processo que o gerou, isto é, ser utilizado novamente no preparo do líquido de cintilação, sem necessidade de aquisição de novo reagente.