Correio da Manhã
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Penido Burnier: o sonho que fez Campinas enxergar o futuro

Instituto transformou a cidade interiorana em referência nacional da oftalmologia

Penido Burnier: o sonho que fez Campinas enxergar o futuro
Edificação que abriga o instituto: entre consultas, exames e cirurgias, o empenho e expectativa por um desfecho favorável Crédito: Rodrigo Rocatto, CC BY-SA 4.0

Há hospitais que vão muito além de tratar doenças. Eles também ajudam a reescrever a história da medicina. Em Campinas, poucos lugares sintetizam tão bem essa diferença quanto o Instituto Penido Burnier. Lá, em qualquer manhã, antes mesmo de o movimento atingir o auge em seus corredores, chegam pessoas vindas de diferentes cidades, estados e, por vezes, até de outros países para se tratarem.

Entre consultas, exames e cirurgias, repetem-se cenas silenciosas carregadas de expectativa e tensão, como uma criança que talvez enxergue com nitidez pela primeira vez; um idoso prestes a recuperar a autonomia perdida devido à catarata; um trabalhador angustiado com a possibilidade de perder a visão; uma família inteira depositando esperança em um diagnóstico complexo.

Ali, diariamente, centenas de histórias individuais se cruzam, sem que quase ninguém perceba que todas elas também estão ajudando a escrever parte de uma história muito maior.

Centro de excelência

Macaque in the trees
Imagem do Instituto Penido Burnier entre os anos de 1940 até 1949 em Campinas | Foto: Aristides Pedro da Silva, CC BY-SA 4.0

Quem atravessa, hoje, a entrada do Penido Burnier, dificilmente imagina que aquele centro de excelência, reconhecido entre os mais tradicionais da oftalmologia brasileira, nasceu muito antes de seus edifícios, equipamentos de alta precisão ou equipes multidisciplinares.

A sua origem nasce de um sonho concebido do outro lado do Atlântico, quando um jovem médico mineiro percorria, em 1907, os corredores de hospitais e clínicas de Paris, na época considerada a capital mundial da medicina.

Enquanto absorvia os mais avançados conhecimentos da oftalmologia europeia, aquele rapaz alimentava uma convicção que parecia ousada naqueles tempos, a de que o Brasil também deveria abrigar uma instituição dedicada exclusivamente ao estudo, o ensino e tratamento das doenças dos olhos, reunindo ciência, assistência e formação médica em um mesmo espaço.

Aquela era uma ambição que ultrapassava à mera construção de um hospital. Tratava-se de criar um centro capaz de produzir conhecimento, formar especialistas e transformar a realidade de milhares de pessoas ameaçadas pela cegueira em um país onde a assistência oftalmológica ainda era escassa, cara e concentrada nas grandes capitais.

Anos antes de a expressão "centro de referência" fazer parte do vocabulário do setor da saúde, João Penido Burnier já enxergava uma instituição que colocaria o interior paulista no mapa da medicina de excelência.

Origem de tudo

A oportunidade de transformar projeto em realidade surgiu poucos anos depois, quando, em 1910, João Penido Burnier estabeleceu-se em Campinas, para atuar como médico da então Companhia Paulista de Estradas de Ferro, uma das instituições mais importantes do Estado, responsável por atrair profissionais altamente qualificados para uma cidade que vivia intensa expansão econômica.

Foi aqui, na hoje metrópole, que ele encontrou o ambiente propício para lançar as bases de um empreendimento que mudaria para sempre a história da oftalmologia brasileira.

Uma década mais tarde, em 1920, nasceu o Instituto Oftálmico de Campinas, com uma proposta revolucionária para o período, a de criar uma instituição especializada, voltada ao atendimento de pacientes, mas também à pesquisa científica, ao ensino médico e ao desenvolvimento de novas técnicas.

Nova etapa

O crescimento foi tão expressivo que, em apenas três anos, em 1923, a instituição passou a receber o nome de Instituto Penido Burnier, consolidando a identidade construída em torno do trabalho de seu fundador.

Desde os primeiros anos, a produção de conhecimento caminhou lado a lado com a assistência. Em 1927, foi criada a Associação Médica do Instituto, fortalecendo o intercâmbio científico entre os especialistas.

Pouco depois, em 1932, começou a circular a revista Arquivos do Instituto Penido Burnier, uma publicação científica que atravessaria décadas, tornando-se uma das mais tradicionais da oftalmologia brasileira, difundindo pesquisas, relatos clínicos e avanços técnicos gerados pela equipe da instituição e por pesquisadores de outras regiões do país.

A influência do Penido Burnier, entretanto, extrapolou os limites de seus consultórios e centros cirúrgicos. Ao longo das décadas seguintes, seus médicos especialistas participaram ativamente da consolidação do ensino médico em Campinas, contribuindo de forma decisiva para a criação da Faculdade de Ciências Médicas da cidade, que, posteriormente, foi incorporada à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A instituição ajudou a formar gerações de especialistas na área de oftalmologia, estabelecendo uma tradição acadêmica que permanece viva até os dias atuais.

Um novo capítulo

Macaque in the trees
Paciente durante a realização de exame oftalmológico | Foto: Magnific

Em 1965, um outro capítulo ampliou ainda mais esse legado, com a instituição da Fundação Dr. João Penido Burnier. A nova entidade fortaleceu a vocação filantrópica do instituto, ampliando o atendimento à população, apoiando a formação de médicos residentes e incentivando projetos científicos que ajudaram a consolidar Campinas como um dos mais importantes polos oftalmológicos do Brasil.

Mais de um século depois daquele sonho concebido em Paris, o instituto transformou-se em referência estadual e nacional para casos oftalmológicos de alta complexidade. Milhares de pacientes chegam todos os anos em busca de diagnósticos difíceis, tratamentos especializados e cirurgias que exigem elevado grau de conhecimento técnico.

Conhecer a história do Penido Burnier é compreender como a visão de um único médico foi capaz de transformar Campinas em um dos mais respeitados centros de oftalmologia da América Latina. Um legado que continua sendo renovado diariamente, a cada paciente que vivencia, graças à evolução da ciência, o privilégio de voltar a enxergar bem.