Há intelectuais que constroem sistemas, escritores que criam personagens e educadores que formulam métodos. Rubem Azevedo Alves fez tudo isso por um caminho próprio e inédito. Ele escolheu as imagens em vez de fórmulas já consagradas, os afetos no lugar das cartilhas, a conversa espontânea ao invés da solenidade e a pergunta à resposta definitiva, que não se abre às possibilidades.
Nascido em Minas Gerais, tornou-se uma das vozes mais singulares do pensamento brasileiro no século XX e início do XXI. Teólogo, filósofo, psicanalista, professor universitário, cronista, poeta, autor de livros infantis, ensaísta e conferencista... Ufa! Que currículo!
Em Campinas, Rubem encontrou mais do que apenas uma cidade para viver. Aqui lecionou, escreveu, criou vínculos, fez amigos, ajudou a pensar a educação, participou da vida cultural e construiu uma relação com a população que permanece profundamente associada ao afeto, reconhecimento e respeito.
Um menino de Boa Esperança
Rubem Alves nasceu em 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, no Sul de Minas Gerais. Ainda menino, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Entretanto, a sua adaptação não foi tão simples. A sensação de deslocamento e a solidão aparecem em seus relatos sobre a sua juventude. A religião, então, tornou-se um espaço de acolhimento, leitura e pertencimento.
Entre 1953 e 1957, o jovem estudou no Seminário Presbiteriano de Campinas, quando a cidade entrou em sua vida pela primeira vez. Após concluir a formação, mudou-se para Lavras, onde atuou como pastor e professor no Instituto Presbiteriano Gammon.
A formação teológica não desapareceu quando ele deixou o púlpito. Ela se tornou uma das bases de sua produção intelectual, resultando em uma reflexão marcada pela liberdade, imaginação e crítica às formas de opressão.
EUA, ditadura e teologia da esperança
No início dos anos 1960, Rubem cursou mestrado em Teologia em Nova York (EUA). Mais tarde, seguiu para o Princeton Theological Seminary, desenvolvendo estudos que resultaram em uma obra fundamental em sua trajetória: A Theology of Human Hope, publicada em inglês, em 1969.
Essa obra é frequentemente apontada como uma das formulações precursoras da Teologia da Libertação. Rubem enfrentou tensões com setores conservadores da Igreja Presbiteriana em uma época marcada pela repressão política da ditadura militar.
Após retornar ao Brasil, iniciou sua trajetória acadêmica, que o levaria à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro e, posteriormente, à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde ingressou em 1974, construindo uma carreira vinculada à Faculdade de Educação.
Tornou-se professor, pesquisador e referência para estudantes e colegas, recebendo o título de Professor Emérito da Unicamp em 1995, cinco anos depois de sua aposentadoria. A própria universidade registra que a distinção é concedida a docentes que prestaram relevantes serviços à ciência e à instituição.
Educação que desperta desejos
Rubem Alves tornou-se um dos educadores brasileiros mais citados para além dos manuais pedagógicos. Seus livros passaram a circular com uma concepção simples e profunda: aprender não deveria ser encarado como um castigo e sim como curiosidade e necessidade de compreender o mundo. Ele via o educador como alguém capaz de despertar a 'fome do conhecimento'.
Esse entendimento aparece em obras como A Alegria de Ensinar, Conversas com Quem Gosta de Ensinar, Entre a Ciência e a Sapiência, O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender, Estórias de Quem Gosta de Ensinar e Por Uma Educação Romântica.
A produção do escritor não cabe em uma única estante. Sua produção bibliográfica ultrapassa uma centena de títulos, com obras publicadas no Brasil e em outros países. Textos seus foram traduzidos para vários idiomas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e romeno.
Em sua literatura infantil, tratou sobre temas difíceis e complexos, como medo, perda, desejo, liberdade, envelhecimento, morte, separação, com linguagem simples e direta, mas profunda.
Em A Pipa e a Flor, por exemplo, a imagem da pipa se transforma em reflexão sobre liberdade e afeto. Em O Patinho que Não Aprendeu a Voar, a diferença aparece como tema central. Em A Menina e o Pássaro Encantado, o amor se mistura à experiência da ausência.
A psicanálise e a escuta do desejo
Após obter obter formação como psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise, a abordagem terapêutica passou a ocupar um lugar importante em seu pensamento,como instrumento para compreender o desejo, o medo, a memória e as dores humanas.
Para ele, o inconsciente não era apenas um depósito de traumas e repressões. Era também fonte de criação, em que sonhos, fantasias, imagens e desejos poderiam ser caminhos para compreender aquilo que a linguagem racional não alcança.
O mineirinho tornou-se um dos intelectuais mais identificados com Campinas. E, a partir de 1986, tornou-se colunista do Correio Popular, jornal tradicional do município. Em suas crônicas, tratou de temas como política, infância, morte, culinária, educação e memória.
Reconhecimento da ACL
Rubem Alves integrou a Academia Campinense de Letras (ACL), reforçando sua ligação com a vida literária da cidade. O poder legislativo também lhe concedeu o título de Cidadão Honorário e a Medalha Carlos Gomes, em reconhecimento à sua contribuição para a cultura. Ele escolheu Campinas como lugar de vida e Campinas o reconheceu como patrimônio intelectual e afetivo.
Rubem Alves escreveu muito sobre a morte. Não de maneira mórbida, mas sim como alguém que acreditava que a consciência da finitude pode tornar a vida mais intensa.
Em julho de 2014, o poeta, com 80 anos, foi internado em Campinas com pneumonia. O quadro se agravou e evoluiu para falência múltipla de órgãos. Ele morreu no dia 19 daquele mês, às 11h50, no Centro Médico de Campinas.
O velório ocorreu no plenário da Câmara Municipal de Campinas. Em carta escrita anos antes aos filhos, o escritor havia deixado indicações para seu funeral, incluindo a leitura de poemas de autores que admirava, como Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes.
Seu corpo foi cremado em Guarulhos e, conforme seu desejo, as cinzas foram espalhadas sob um ipê-amarelo.
O eterno campineiro
Rubem Alves nasceu em Boa Esperança, mas pertence também a Campinas. Pertence à cidade que o recebeu como seminarista, professor, escritor e cidadão honorário, e, ainda, à universidade onde ensinou.Pertence ao jornal local onde publicou crônicas. Pertence à ACL. Pertence às escolas que leem os seus livros. Pertence aos leitores que encontram em suas palavras uma espécie de abrigo.
Ele permanece a nos recordar que aprender é um ato de desejo. E talvez, seja por isso mesmo que seu legado permanece tão vivo.
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