Correio da Manhã
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Palácio dos Azulejos: o retrato de uma era de riqueza

Casarão construído pelo Barão de Itatiba para morar com a família resiste às transformações urbanas

Palácio dos Azulejos: o retrato de uma era de riqueza
Construção foi erguida como uma demonstração de poder econômico e cultural no séc. XIX, a partir de um estilo arquitetônico neoclássico ainda raro no município naquele período Crédito: Carlos Bassan/ByBassan

Poucas construções conseguem contar, por meio de sua estrutura arquitetônica e paredes, a sua própria trajetória em uma cidade, como é o caso do Palácio dos Azulejos, em Campinas. Conhecido como Solar do Barão de Itatiba, o belo casarão do século XIX é um desses raros casos, conseguindo nos oferecer um vislumbre de um período em que o município se tornou um dos mais ricos do interior brasileiro, graças à sua economia cafeeira.

A construção e história deste imóvel se confunde com a de uma das famílias mais influentes da época e do próprio desenvolvimento urbano, político e cultural da cidade.

As obras da edificação começaram em 1878, num período de extraordinária prosperidade econômica, tendo como idealizador um dos grandes cafeicultores e empresários da região daquela época, Joaquim Ferreira Penteado.

A residência foi planejada e erguida para acolher o barão e os membros de sua família, entre eles, o seu genro, tenente-coronel Pacheco e Silva, importante fazendeiro, cafeicultor e influente oficial da Guarda Nacional em Campinas.

Na prática, o conjunto contemplava duas construções geminadas, concebidas independentemente, porém, harmonizadas a partir da aplicação de técnicas e conceitos arquitetônicos sofisticados e monumentais para os padrões da época.

Ciclo de 'ouro líquido': o café

Naqueles anos, Campinas vivia o auge do ciclo do café, produzindo riqueza em escala internacional, enquanto os grandes produtores do grão buscavam expressar o seu prestígio e fortuna por meio de residências inspiradas nos modelos europeus.

O Palácio dos Azulejos surgiu justamente como uma dessas demonstrações de poder econômico e cultural, a partir de um estilo arquitetônico neoclássico raro no município naquele período, incorporando materiais importados da Europa, como mármores, lustres, tintas, metais ornamentais e, é claro, os famosos azulejos portugueses, que revestem até hoje a fachada e deram origem ao nome pelo qual o edifício se tornou conhecido.

O primor nas escolhas das peças e materiais não buscava apenas um resultado estético. Representava um refinamento associado à tradição portuguesa, com a finalidade de distinguir a residência na paisagem urbana. Os revestimentos chegaram da cidade do Porto e transformaram a fachada em uma das mais reconhecíveis da arquitetura paulista oitocentista.

Isso sem mencionar os gradis de ferro fundido, esculturas decorativas e uma claraboia com vidros coloridos que ajudavam a criar uma atmosfera de luxo rara no interior do país naqueles anos.

Imóvel torna-se local público

Apesar da riqueza e imponência da construção, a permanência da família no imóvel foi relativamente curta. Após a morte do Barão de Itatiba e de sua esposa, os herdeiros decidiram se desfazer da propriedade.

Assim, em 1908, o conjunto foi adquirido pela municipalidade, iniciando uma mudança em sua trajetória. A antes residência privada se tornou um espaço público, passando a sediar a Prefeitura Municipal e o Fórum local. Durante seis décadas, o casarão esteve no centro das decisões administrativas e judiciais de Campinas.

Em suas salas circularam prefeitos, vereadores, magistrados, servidores e cidadãos comuns. O palácio tornou-se testemunha das principais mudanças urbanas, políticas e sociais ocorridas ao longo do século XX.

Preservação do patrimônio

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Museu da Imagem e do Som está instalado no antigo solar, no coração da região central | Foto: Firmino Piton/PMC

Quando a Prefeitura se transferiu para o Palácio dos Jequitibás, em 1968, o edifício ganhou novos usos. Foi ocupado pela Sanasa e, posteriormente, passou para a área cultural do município. Atualmente, abriga o Museu da Imagem e do Som de Campinas (MIS) e setores que envolvem a preservação da memória da cidade.

A mudança simbolizou uma nova vocação, saindo de um centro administrativo para um centro de preservação histórica e cultural.

Sua relevância patrimonial também foi reconhecida oficialmente. O Palácio dos Azulejos é tombado pelo governo municipal, estadual e federal, algo raro de se encontrar entre os bens históricos campineiros.

O reconhecimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), autarquia federal do Governo do Brasil, foi fundamental para garantir a sua preservação num período em que diversas construções históricas desapareceram com o avanço da urbanização.

Guardião da memória

Mais de um século e meio após a sua construção, o Palácio dos Azulejos continua sendo uma das mais eloquentes expressões da memória campineira. Poucos edifícios conseguem reunir tantas camadas de significado.

Ao sobreviver às transformações urbanas e às mudanças de função, o palácio tornou-se um verdadeiro guardião da identidade de Campinas.