A liderança da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no ranking de depósitos de patentes entre as universidades paulistas pelo terceiro ano consecutivo não diz respeito a apenas mais um indicador acadêmico. O resultado divulgado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), no final de maio, mede algo que costuma passar despercebido pela população em geral: a capacidade de uma universidade de transformar conhecimento científico em inovação, impactando a sociedade, gerando tecnologia, movimentando a economia e fortalecendo a soberania tecnológica do país.
Em 2025, a Unicamp registrou 73 depósitos de patentes de invenção e alcançou a 5ª colocação no ranking geral de depositantes residentes no Brasil, que reúne empresas privadas, universidades, centros de pesquisa e instituições públicas. Entre as universidades paulistas, ela manteve a liderança estadual. O total de depósitos também confirma uma curva de crescimento consistente: em três anos, a universidade acumulou um aumento superior a 80% nos depósitos de patentes.
“O resultado visto no ranking do INPI, com a Unicamp entre os maiores depositantes de patentes do país, é resultado de uma atuação contínua voltada à consolidação da cultura de proteção da propriedade intelectual no cotidiano da comunidade acadêmica”, avalia a supervisora de propriedade intelectual na Inova, agência de inovação da universidade, Elisama Campelo.
De acordo com dados do INPI, os maiores depositantes universitários no Brasil, no ano passado, foram a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com 94 pedidos, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com 84, a Unicamp, com 73, e a Universidade de São Paulo (USP), com 65.
O papel do INPI
Mas o que exatamente significa ser mencionado entre os maiores depositantes de patentes do Brasil?
Para compreender a dimensão desse resultado, é importante compreender o papel do INPI e a importância do sistema voltado à propriedade intelectual. Criado em 1970, durante um período em que o Brasil buscava estruturar a sua política industrial e tecnológica, o instituto tornou-se o órgão responsável por administrar os registros e concessões relativos à propriedade intelectual no país.
É o INPI que analisa pedidos de patentes, registros de marcas, desenhos industriais, programas de computador e outros ativos ligados à inovação e à criação tecnológica. Sua função principal é a de garantir segurança jurídica para inventores, pesquisadores, empresas e instituições que criam e desenvolvem soluções inéditas.
Na prática, uma patente funciona como um mecanismo de proteção temporária de uma invenção. Ao depositar uma patente, o inventor ou a instituição passa a reivindicar o direito exclusivo de exploração daquela tecnologia por determinado período, desde que ela cumpra requisitos técnicos e legais, tais como novidade, atividade inventiva e aplicação industrial.
É importante esclarecer que o ranking do INPI não mede “patentes concedidas”, mas sim “depósitos realizados”. Ou seja, contabiliza os pedidos formalmente apresentados ao instituto. Contudo, ainda assim, o indicador é considerado um dos principais termômetros de atividades inovadoras, visto que revela quem está produzindo conhecimento com potencial de aplicação tecnológica e quem busca proteção para as criações dentro do sistema oficial de propriedade intelectual.
Entre as cinco do Brasil
O “Ranking de Depositantes”, publicado anualmente pelo instituto, foi idealizado justamente para identificar os principais usuários do sistema brasileiro de propriedade intelectual. A edição de 2025 trouxe, inclusive, avanços metodológicos que passaram a considerar de maneira mais ampla os casos de cotitularidade e apenas depósitos com pagamento confirmado, tornando os dados mais precisos e comparáveis aos anos anteriores.
Nesse contexto, a presença da Unicamp entre os cinco maiores depositantes da nação adquire um significado especial.
Quando uma universidade registra uma patente, ela está sinalizando que determinada pesquisa ultrapassou a etapa puramente acadêmica e apresenta potencial para se tornar produto, processo, equipamento, medicamento, software ou solução tecnológica capaz de atender as demandas da sociedade.
Em outras palavras, a patente representa uma ponte entre a bancada do laboratório e o mundo real. Por isso, quando universidades aparecem em destaque no ranking, o dado revela mais do que produtividade acadêmica, ele aponta a capacidade de gerar conhecimento estratégico, proteger ativos tecnológicos e criar oportunidades para transferência de tecnologia.
A Agência Inova
No caso da Unicamp, esse desempenho não surgiu de forma espontânea, ele é resultado de mais de duas décadas de estruturação institucional voltada à inovação.
A Agência de Inovação Inova Unicamp foi criada em 2003 e, mais recentemente, ampliou ações de capacitação em propriedade intelectual, criou disciplinas voltadas ao tema na pós-graduação, fortaleceu mentorias especializadas e lançou iniciativas de aproximação entre pesquisadores e empresas, como o InovaLab.
O resultado pode ser medido em números. O próprio ranking de 2025 evidencia a força do sistema universitário paulista. Juntas, Unicamp, USP, Unesp e UFSCar somaram 189 depósitos de patentes de invenção no período analisado. O dado ajuda a explicar por que São Paulo continua sendo uma das principais regiões produtoras de ciência e tecnologia do país.
Para o Renato Lopes, diretor-executivo da Inova Unicamp, “a permanência da Unicamp entre os destaques do ranking do INPI reflete o amadurecimento de ações estratégicas contínuas da Inova. Esse crescimento expressivo no acumulado de três anos demonstra que nossa proximidade com docentes, pesquisadores e alunos tem gerado resultados sólidos e sustentáveis”.
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