Radicada em Campinas, desde 1956, a educadora, escritora, pesquisadora e crítica de cinema, Dayz Peixoto Fonseca foi recebida na última quinta-feira (28), no plenário da Câmara Municipal de Campinas, para receber um justo e merecido reconhecimento do município, o Diploma de Mérito do Audiovisual Irmãs Richerme, pela sua trajetória profundamente entrelaçada e dedicada à memória cultural, cinema, fotografia e preservação histórica da nossa metrópole.
“Com ela, entra pela porta (da Câmara Municipal) toda uma cidade que aprendeu a se ver na tela graças ao seu gesto teimoso de ligar a câmera, abrir o arquivo, puxar a cadeira para o debate”, escreveu Hamilton Rosa Júnior, diretor de Cena, produtor e coordenador de conteúdo transmídia, em suas redes sociais sobre a escritora.
A própria homenageada manifestou surpresa e alegria pelo reconhecimento do seu trabalho. ”Foi uma surpresa, nunca imaginei que isso fosse acontecer. Inclusive, eu mesma não conhecia a história das irmãs Richerme (atrizes pioneiras da década de 1920 em Campinas). Estou encantada com a honraria”, afirmou.
Curtametragem “O Pedreiro”
A trajetória de Dayz começou quando, ainda bem jovem, participava intensamente da efervescência cultural universitária dos anos 1960, sendo uma das fundadoras do Cine-Clube Universitário de Campinas, criado em meio ao pesado ambiente político e intelectual que se formou logo após o golpe militar de 1964.
O cineclube se transformaria em um importante espaço de reflexão cinematográfica e de formação cultural, trazendo para a cidade filmes fora do circuito comercial e promovendo debates sobre estética, política e arte.
E foi nesse contexto que ela dirigiu o curta-metragem “Um Pedreiro”, considerado um marco na produção cinematográfica campineira independente, sendo reconhecido em vários festivais importantes da época, incluindo premiações no Festival Brasileiro de Cinema Amador JB/Mesbla, no Rio de Janeiro, e no Festival Experimental Latino-Americano do Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo.
Criação do MIS
Contudo, seu nome acabou sendo definitivamente associado a uma das mais importantes instituições culturais da cidade, o Museu da Imagem e do Som de Campinas (MIS), criado oficialmente em 1975.
Ao lado do cineasta Henrique de Oliveira Júnior, Dayz liderou fotógrafos, cineastas e pesquisadores em prol da criação do museu. O objetivo era ambicioso: preservar a memória audiovisual de Campinas e Região, reunindo fotografias, filmes, equipamentos, documentos e registros históricos que se encontravam dispersos ou ameaçados de desaparecimento.
Ao longo dos anos, Dayz ajudou a consolidar o MIS como referência cultural e educativa, coordenando projetos pioneiros de pesquisa sobre cinema, fotografia e artes visuais, incluindo estudos a respeito da produção cinematográfica campineira entre as décadas de 1920 e 1980.
Outras atividades relevantes envolveram as pesquisas sobre o chamado Grupo Vanguarda, um movimento artístico que introduziu conceitos modernistas nas artes plásticas da cidade, e a criação e incentivo de ações para a formação qualificada de público, sessões de cinema de arte e iniciativas de educação patrimonial.
1ª mulher a presidir o CCLA
Extrapolando o contexto audiovisual, entre 1992 e 2000, Dayz presidiu o Centro de Ciências, Letras e Artes, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo na tradicional instituição centenária, fundada em 1901. Durante a sua gestão, coordenou projetos de revitalização do Museu Carlos Gomes e ampliou o trabalho de preservação documental e artística do CCLA, com foco na valorização da memória cultural campineira.
Paralelamente, consolidou-se como pesquisadora e autora. Seus livros revelam uma dedicação afetiva na reconstrução de personagens, imagens e das trajetórias esquecidas pela história oficial. Entre as obras publicadas estão “O Viajante Hércules Florence, águas, guanás e guaranás”, lançado em 2008, “Landina – os fios da memória”, de 2011, e, mais recentemente, Dayz direcionou as suas pesquisas ao fotógrafo austríaco Victor Fiegert, que viveu em Campinas entre as décadas de 1950 e 1960.
O trabalho resultou no livro “Victor Fiegert, um fotógrafo austríaco no Brasil: a poética do retrato”, lançado em 2024. A obra reúne uma extensa pesquisa histórica e uma coleção de retratos cedidos por famílias campineiras, resgatando o talento do fotógrafo e os aspectos da vida social e cultural da urbe naquele período.
Resgatando a memória
Mais do que ocupar cargos ou publicar livros, Dayz Peixoto Fonseca ensinou Campinas a se olhar. Sua produção é pontuada pelo resgate da memória coletiva e da preservação de arquivos, imagens, histórias e personagens que poderiam facilmente desaparecer com o tempo.
Há algo de profundamente humano na forma como ela conduz o seu trabalho, criando, pesquisando, escrevendo, resistindo… Seus livros, filmes e projetos culturais revelam permanências afetivas. Ao recuperar a história de um fotógrafo esquecido, de um movimento artístico ou de antigas experiências cinematográficas, ela ajuda a preservar vínculos emocionais de Campinas com o próprio passado.
Sua obra recente mostra que, mesmo depois de décadas de atuação dedicada, Dayz permanece movida pela mesma inquietação que atravessou toda a sua trajetória: a de impedir que Campinas esqueça de si mesma.
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