ENTREVISTA com Georgea Rodrigues

Museu do Futebol amplia acessibilidade com audioguia inclusivo

Projeto "Futebol é Mais" usa narrativa inspirada no rádio para tornar a exposição principal mais acessível e envolvente

Museu do Futebol amplia acessibilidade com audioguia inclusivo
A missão ficou com Georgea Rodrigues, entrevistada com exclusividade pelo Correio da Manhã. Crédito: Nilton Fukuda/Museu do Futebol

O Brasil é conhecido mundialmente como o "país do futebol", sendo a única seleção masculina pentacampeã no planeta. O brasileiro é um apaixonado pelo esporte, que revelou nomes históricos do esporte, como Pelé e Marta. E justamente para preservar o acesso a essa trajetória, o Museu do Futebol, em São Paulo, tornou a sua exposição principal ainda mais acessível para pessoas com deficiência visual por meio do audioguia "Futebol é Mais".

O projeto foi desenvolvido pela Inclusive Acessibilidade, produtora cultural e consultoria focada na promoção da inclusão. A missão ficou sob a coordenação da diretora Georgea Rodrigues, que foi entrevistada com exclusividade pelo Correio da Manhã.

Acompanhe agora os trechos principais da conversa:

Correio da Manhã: O que é a audiodescrição e como foi desenvolvido este projeto?

Georgea Rodrigues: A audiodescrição é um recurso de acessibilidade comunicacional. Uma tradução de imagens em palavras. Uma pessoa com deficiência visual não consegue aproveitar plenamente um espaço altamente imagético sem esse recurso. Assim, desenvolvemos esse projeto durante quase dois anos. A exposição do Museu do Futebol é incrível e pensamos em uma narrativa diferente para ela. Mais dinâmica, que aproximasse as pessoas do conteúdo.

E qual foi a inspiração?

O formato foi inspirado em um programa de rádio, já que há uma relação histórica entre o futebol e as transmissões de rádio. E o rádio faz parte da memória afetiva do futebol, além de ser um dos canais preferidos das pessoas com deficiência visual. Então, criamos a Rádio Museu do Futebol, com dois âncoras e uma repórter-audiodescritora conduzindo o visitante pelas salas.

O que torna o audioguia "Futebol é Mais" diferente?

Trabalhamos com uma narrativa dramatúrgica, na qual os personagens são interpretados por atores e dubladores profissionais, que vão conversando enquanto percorrem o museu. Esses personagens descrevem detalhadamente as fotografias, esculturas, objetos históricos, vídeos e ambientes nos seus detalhes mais significativos. Embora o projeto tenha sido criado para pessoas com deficiência visual, a ideia principal é a de inclusão. Por isso, partimos do objetivo de criar um produto interessante e atrativo também para pessoas sem deficiência visual.

Como o audioguia transforma os fatos e curiosidades do futebol em uma experiência sensorial?

Compilamos as histórias curiosas por meio de uma narrativa envolvente, para atrair qualquer pessoa para essa experiência. Entre os exemplos apresentados no audioguia estão histórias, como as de que Marta improvisava as suas bolas, substituindo-as por cabeças de boneca durante a sua infância em Alagoas. Ou de como surgiu o famoso grito de gol "compriiiiiido", criado pelo narrador Rebello Júnior. Histórias assim transformaram o audioguia para além de apenas um recurso de audiodescrição. Ele se tornou uma narrativa viva, interessante e divertida.

Por que a audiodescrição é tão importante em museus e espaços culturais?

É comum você entrar em uma sala cheia de fotos do Pelé e ver uniformes históricos, textos e vídeos e simplesmente não saber exatamente por que aqueles objetos estão ali. Cada objeto exposto carrega uma história e, sem audiodescrição, a experiência torna-se incompleta. Ou seja, para compreender integralmente e vivenciar aquela experiência, é essencial contar com uma audiodescrição contextualizando o ambiente.

Macaque in the trees
Objetos históricos de Pelé integram acervo do museu | Foto: Museu do Futebol

O Brasil já avançou na questão da acessibilidade cultural?

Já existem leis que garantem a audiodescrição, a comunicação por Libras e a legendagem descritiva. O problema é que muitos projetos fazem isso apenas para cumprir obrigação. E tem ainda muito capacitismo na forma como alguns produtores tratam os recursos de acessibilidade. Não raro acontece um orçamento enorme para uma exposição e um orçamento mínimo para a acessibilidade. Isso revela que muitas pessoas no Brasil ainda enxergam esse público como secundário.

Quem também pode ser beneficiado pela audiodescrição?

A audiodescrição não atende somente pessoas com deficiência visual, ela pode beneficiar idosos, pessoas com baixo letramento, pessoas com síndrome de Down e alguns indivíduos dentro do espectro autista. É importante ainda ter o cuidado de se referir às pessoas com deficiência visual adequadamente. Atualmente, o termo "pessoa com deficiência" é o mais adequado, porque coloca o indivíduo antes da deficiência, diferentemente da expressão "deficiente", considerada limitante.

Para finalizar, que recado gostaria de deixar aos nossos leitores?

Ampliar recursos de acessibilidade significa democratizar o acesso à cultura e à informação. Essas pessoas existem, pagam impostos e têm direitos. A acessibilidade não é um favor, é um direito.

Serviço:

Macaque in the trees
Fachada do estádio do Pacaembu, sede do Museu do Futebol | Foto: Divulgação/Museu do Futebol

Museu do Futebol

Praça Charles Miller, s/n
Estádio Paulo Machado de Carvalho – Pacaembu
São Paulo/SP – Brasil

  • Terça-feira a domingo, das 9h às 18h (entrada até 17h)
  • Toda primeira terça-feira do mês, até 21h (entrada até 20h)
  • Ingressos: R$ 24,00 (inteira) e R$ 12,00 (meia-entrada)
  • Grátis às terças-feiras (ingresso pela internet)
  • Crianças até 7 anos não pagam