A trajetória da Chapéus Cury conecta Campinas a uma das maiores aventuras da cultura pop
17 de maio de 202622:45Por Ana Carolina Martins
Modelo de chapéu do Indiana Jones feito na antiga fábrica Cury em CampinasCrédito: Julia Zakia/Arquivo Pessoal
O deserto parece não ter fim… O vento levanta a poeira em redemoinhos, enquanto ele corre…não por coragem, mas por instinto. O seu chapéu quase voa, enquanto o seu chicote estala no ar, e, por um segundo, tudo parece perdido! Eis então que, em um último gesto antes da porta de pedra se fechar, ele se joga pela pequena abertura ainda possível, sem deixar cair o seu chapéu, um Fedora marrom que permanece firme na cabeça.
Foi ali, naquele frame congelado do filme de aventura, que o personagem do ator estadunidense Harrison Ford imortalizou o dr. Henry Walton "Indiana" Jones Jr. como um arqueólogo destemido e icônico, que equilibrava a vida acadêmica com suas aventuras perigosas na década de 1980.
O personagem Indiana Jones, criado pelos gênios do cinema - George Lucas e Spielberg - tornou-se um ícone pop na época, conhecido por ser audacioso, charmoso e ter um medo irracional de cobras. Não apenas pelo arqueólogo destemido que representava, mas por aquilo que o identificava à distância: o seu chapéu.
O ator Harrison Ford, interpretando o personagem Indiana Jones, sucesso do cinema mundial, com o icônico chapéu produzido em Campinas. | Foto: Reprodução Walt Disney Studios Motion Pictures
‘DNA campineiro’
O que pouca gente imagina é que, entre templos fictícios, serpentes cenográficas e relíquias lendárias, um fio invisível liga esta produção de Hollywood à Campinas. Um apetrecho que era parte integrante da identidade visual daquele personagem, cujo sucesso foi tão retumbante que ganhou uma série cinematográfica: o chapéu com o DNA campineiro. E, sim, a aventura também começou aqui.
Ainda que exista disputa histórica sobre o design original do chapéu, há um consenso importante: a tradicional fábrica Chapéus Cury, em Campinas, participou diretamente da produção em larga escala do acessório que se tornaria um ícone mundial. Um cliente ligado ao projeto do filme solicitou à empresa chapéus semiacabados que seriam finalizados no Exterior.
Dentro da fábrica, ninguém tinha ideia da dimensão a que chegaria este pedido. Não sabiam que aquele “personagem de aventura” ganharia rosto, muito menos que esse rosto seria o de Harrison Ford. Eles somente souberam depois, no escuro do cinema, como qualquer outro espectador… Estava ali, na tela, um objeto moldado em Campinas e que havia atravessado o mundo.
Foram produzidas peças para o figurino e milhares de unidades posteriormente, diante da explosão de popularidade do filme. Ao longo das décadas, estima-se que centenas de milhares de chapéus do universo de Indiana Jones tenham saído diretamente das linhas de produção da Cury.
Antes de Hollywood A fábrica de Chapéus Cury em Campinas, que foi desativada e no terreno está sendo construído um condomínio | Foto: Carlos Bassan/PMC
Foi assim que esta tradicional fábrica se inscreveu, discretamente, na história do cinema estadunidense. Entretanto, a saga da Chapéus Cury começou muito antes de Hollywood, talvez de maneira ainda mais fascinante.
Fundada na década de 1920, a fábrica nasceu pequena, quase artesanal, fruto da iniciativa de imigrantes que enxergaram em Campinas, em plena transformação, um terreno fértil para crescer.
O que começou como uma oficina de reforma de chapéus, rapidamente se expandiu. Em poucos anos, a produção ganhou escala industrial, acompanhando o ritmo de uma urbe que deixava para trás o passado rural e abraçava a modernidade.
Na metade do século, a fábrica já era gigante, e uma ampliação em 1957 consolidou um complexo impressionante, com maquinário a vapor e processos que misturavam técnica e delicadeza manual. Ali, e naquele tempo, o chapéu não era apenas um acessório, era símbolo de status. Nos anos 1950 e 60, sair à rua sem ele era quase impensável.
A Chapéus Cury chegou a empregar cerca de mil trabalhadores, produzindo para todo o Brasil, aproveitando a proximidade com as ferrovias da Mogiana e da Paulista para distribuição. Era uma outra época, quando Campinas vivia uma industrialização pulsante e elegante.
Lado invisível
Na fábrica Cury, havia também um lado invisível.O cheiro de lã e madeira, o vapor das máquinas, o silêncio concentrado dos chapeleiros moldando peças quase à mão… Somente aqueles que entraram ali podem efetivamente descrever a sensação de atravessar o tempo, como se cada sala guardasse memórias impregnadas nas paredes.
A fábrica não produzia apenas chapéus. Produzia histórias. E, ao longo das décadas, a Chapéus Cury adaptou-se às mudanças culturais. Do auge do chapéu social à onda sertaneja dos anos 1980, passando por encomendas para a televisão, artistas e grandes produções.
Contudo, como tantas indústrias tradicionais, enfrentou o declínio de um hábito que desaparecia das cabeças e das ruas. O chapéu deixou de ser necessidade, virou escolha. E, mais tarde, raridade. A produção seguiu, resistente, até o encerramento das atividades em 2012.
O tempo, algo que antes impulsionava, passou a corroer. Anos depois, o abandono transformou aquele espaço em ruína e, em 2022, grande parte da estrutura foi demolida, dando lugar a um novo empreendimento urbano.
Indiana Jones (Harrison Ford) e Helena (Phoebe Waller-Bridge) no filme "Indiana Jones e a Relíquia do Destino", lançado em 2023 | Foto: Lucasfilm Ltd.
Um fim que não tem fim
Restaram apenas a fachada e a chaminé preservadas como memória física de um passado que não existe mais, mas que permanece na memória do campineiro. Um tipo de fim que não é exatamente um fim, pois há histórias que continuam mesmo quando os prédios caem.
A Chapéus Cury é uma delas. Está nas lembranças de quem trabalhou ali, nas fotografias esquecidas e, de forma quase mágica, também no cinema, atravessando desertos imaginários na cabeça de um aventureiro.
E foi assim, entre trilhos de trem, máquinas a vapor e sonhos industriais, que uma cidade do interior de São Paulo ajudou a vestir um herói global. Sem alarde e sem créditos no final, mas com a elegância silenciosa de quem sabe que certas marcas não precisam de assinatura para se tornarem eternas.
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