Por: Ana Carolina Martins

Figuras populares que marcaram época na metrópole

Campinas é um celeiro de personagens inesquecíveis… De tipos humanos que nunca ocuparam, em princípio, cargos públicos, nem tiveram bustos em praças, mas que, de tanto circular pelas ruas, interagindo com a população, acabaram se tornando “figurinhas carimbadas”, verdadeiros patrimônios afetivos da cidade.

Em meio a barões do café, empresários, reitores e prefeitos, coexistiu uma linhagem de protagonistas populares que transformaram as calçadas de Campinas em palco, e o Centro, em território de convivência.
Entre eles, um dos mais saudosos foi o folclórico ‘Mané Fala Ó, batizado Manoel João Lopes. Era comum encontrá-lo nas imediações da área central, especialmente no Largo do Rosário e na Rua 13 de Maio.

Essa figura atravessou décadas sendo presença constante na paisagem urbana, repetindo o seu bordão - “Ô!” - seguido de comentários espirituosos, críticas improvisadas ou observações sobre a vida alheia, algumas bem-humoradas, outras… nem tanto.

Conhecido “de vista” por comerciantes, bancários, funcionários públicos e estudantes, ‘Mané Fala Ó’ não precisava de microfone. A sua tribuna era a esquina, num tempo em que o Centro pulsava enquanto coração econômico e social da urbe, quando personagens como ele ajudavam a construir a identidade do espaço público. Ele chegou a ser enredo da escola de samba da Escola Rosas de Prata, na década de 90.

Porém, em dezembro de 2003, por volta das 20h, Mané sofreu um atropelamento na Avenida Mirandópolis. Levado ao pronto-socorro do Hospital Dr. Mário Gatti, mas ele não resistiu aos ferimentos, deixando a região central mais silenciosa.

Megafone ambulante

Outro tipo popular e inesquecível foi Antônio Francisco dos Santos, o “Tonhão da Rapadura”, também conhecido como o ‘Politizador’. Diferentemente de outros personagens mais contemplativos ou pitorescos, ele tinha causas a defender.

Tonhão da Rapadura", antes de ingressar na política e adotar a sua persona pública marcante, vendia rapadura nas ruas da região central da cidade, quando aproveitava para distribuir opiniões, puxando debates, comentando sobre eleições, criticando governos e defendendo as suas ideias com entusiasmo e fervor.

Para muitos, ele era apenas uma figura engraçada. Para outros, um cidadão engajado politicamente, mesmo não ocupando qualquer espaço institucional. Contudo, o que parecia apenas uma performance de rua, acabou se convertendo em uma trajetória política formal.

O ‘Politizador’ se elegeu vereador em Campinas com mais de 2 mil votos e atuou com foco na reurbanização do Centro e incentivou o uso de megafones para fiscalizar e chamar a atenção dos governantes. Ele faleceu em junho de 2020, aos 78 anos, depois de levar para a Câmara Municipal, na gestão 2009-2012, a mesma verve combativa que costumava exercitar nas calçadas.

Show de carisma

Outro personagem popular que ajudou a colorir o cotidiano campineiro com irreverência e presença marcante nas áreas centrais foi o Bozó. Carismático, Bozó fazia parte daquele cenário em que bastava aparecer para ser reconhecido. Não precisava de cargo nem de palco fixo, a rua era o seu território, a sua vitrine. 

O apelido de José Carlos Roque de Oliveira surgiu devido à semelhança com um dos personagens do comediante Chico Anysio na TV. Bozó, querido bugrino, filho do saudoso sambista Juquinha, presidente da Escola Império do Samba, faleceu em 2017, aos 58 anos.

"Nunca houve uma mulher como Gilda"

Entre esse tipos populares, figuras femininas também se destacaram. Foi o caso de ‘Gilda’, Geovina Ramos de Oliveira, uma mulher simples, presença constante na área central e conhecida e querida por seu jeito expansivo e pela forma como ela interagia junto aos comerciantes e frequentadores da região.

Assim como tantos personagens urbanos, sua história mistura lacunas e versões orais transmitidas por quem conviveu com ela. Seu nome permanece vivo na lembrança daqueles que frequentavam diariamente as ruas centrais, em uma época na qual as relações eram bem menos impactadas pela pressa.

Outra que permanece “viva” no imaginário foi a ‘Conceição da Macaca’, torcedora-símbolo da Associação Atlética Ponte Preta. No universo do futebol, poucas mulheres expressavam tanta paixão e fidelidade ao clube quanto ela.

Presença constante nos jogos, especialmente no Estádio Moisés Lucarelli, ela encarnava a alma pontepretana. Não era apenas espectadora, era persona grata e querida. Em vitórias ou derrotas, sua imagem se confundia com a arquibancada, com o grito rouco, com a fidelidade enquanto sinônimo de pertencer a algo.

É verde e amarelo

E há ainda o advogado Nelson Paviotti, figura conhecida por transformar eventos esportivos internacionais em atos públicos de patriotismo. Em Copas do Mundo e Olimpíadas, era impossível não notar a sua presença, vestido de verde e amarelo, empunhando bandeiras e irradiando entusiasmo.

Paviotti soube, como poucos, honrar as cores do Brasil em momentos de celebração coletiva, fazendo do seu amor ao país uma performance cívica constante. Sua imagem, sempre associada ao entusiasmo esportivo, tornou-se parte da iconografia popular da cidade.

Esses personagens não surgiram por acaso. Até os anos 1980 e 1990, o Centro era o grande ponto de encontro. Ali estavam os cinemas de rua, que não existem mais, as lojas de marcas tradicionais, os cafés, as sedes de clubes e instituições.

As praças recebiam retretas musicais, que eram apresentações ao vivo de bandas marciais ou filarmônicas, tradicionalmente realizadas em coretos, praças ou locais públicos, geralmente aos domingos, e as calçadas eram ocupadas como espaços de conversas e debates espontâneos.

Havia o pregador que subia em caixotes para anunciar o fim dos tempos; o vendedor que jurava saber o resultado da loteria antes do sorteio; o tocador de sanfona que fazia do intervalo dos antigos cinemas um pequeno espetáculo… Alguns enfrentavam vulnerabilidades sociais, enquanto outros, simplesmente, escolhiam a rua como palco. Em comum, o reconhecimento popular.

Esvaziamento gradual

Com o esvaziamento gradual do Centro e a mudança do eixo econômico da cidade, essas figuras foram se tornando mais raras. A Campinas, que hoje se projeta como polo tecnológico e universitário, já não produz com a mesma intensidade os personagens de esquina. A pressa substituiu a prosa. A multidão anônima tomou o lugar da comunidade que se cumprimentava diariamente.

Resgatar Mané Fala Ó, o Politizador, Gilda, Bozó, Conceição da Macaca e Nélson Paviotti é mais do que exercício de nostalgia. É reconhecer que a história urbana também se faz com vozes improvisadas, bordões repetidos, camisas alvinegras nas arquibancadas e bandeiras verde-amarelas tremulando nas ruas.

Eles ajudaram a construir uma identidade que não aparece nos relatórios oficiais nem nos indicadores econômicos, mas permanece viva na memória coletiva, uma espécie de patrimônio silencioso e poderoso.