Por: Ana Carolina Martins

Uma campineira no alvorecer da República

Tela à óleo "A Pátria", de Pedro Bruno, no Rio de Janeiro, 1919 de 1919, retratando a bandeira sendo bordada por mulheres | Foto: Domínio Público/Wikipédia

Quando nos referimos à figura de primeira-dama no contexto político brasileiro, pouca importância histórica é dada a esta personagem de poder e prestígio, geralmente vinculada à memória popular mais recente, a partir do século 20, como atuante apenas em espaços de ação social e pouca visibilidade pública.

O que pouquíssimos sabem é que uma das primeiras mulheres a ocupar esta posição, a segunda primeira-dama do país no período da República Oligárquica inicial da República brasileira, foi uma campineira: Anna Gabriella de Campos Sales, que veio ao mundo em 24 de janeiro de 1850, quando a cidade pulsava ao ritmo da economia cafeeira e da formação da elite política paulista.

Décadas depois, ao lado do marido, Manuel Ferraz de Campos Sales (1841-1913) - este, filho de uma tradicional família de agricultores campinenses e um dos líderes do Movimento Republicano no Segundo Reinado de Dom Pedro II, que foi o segundo presidente eleito da República Brasileira - ela se tornaria a segunda primeira-dama.

Família e propriedades

Filha de família numerosa e tradicional, sua trajetória começou muito antes de ela pôr os pés no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede do governo na época. Anna Gabriella cresceu em um ambiente no qual alianças familiares eram parte da engrenagem econômica, social e política.

Traduzindo: anteriormente à era do Romantismo no Brasil (meados do século XIX), os casamentos eram, essencialmente, acordos comerciais e estratégias familiares relacionadas a propriedades e bens diversos. Raramente o enlace tinha como premissa critérios relacionados a afinidades e/ou amorosos.

Eram cerimônias arranjadas, celebradas pela Igreja Católica, com base na forte submissão feminina à tutela masculina, cujo foco era a manutenção de patrimônio e influência. Ou seja, alianças sociais e transferências de riquezas mediante o casamento.

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Campos Sales em pé, Anna Grabriella sentada ao lado dele, ambos de preto, rodeados pelos filhos | Foto: Domínio público/Wikipedia

A menina se casa

Sem qualquer escuta sobre o que sentia e desejava, Anna Gabriella, aos 15 anos, contraiu matrimônio com o primo Manuel Ferraz de Campos Sales. A partir dali, deu a luz a dez filhos, enfrentando perdas ainda na adolescência, como era tristemente frequente no século XIX, e construindo a sua identidade dentro dos parâmetros que eram esperados para uma mulher de sua classe como esposa, mãe e administradora da casa.

Quando Campos Sales foi empossado como presidente da República, em 1898, o Brasil ainda engatinhava para chegar a ser uma República de fato. Por isso, não existia um modelo definido para o papel da ‘esposa do presidente’. Assim como também não havia programas sociais estruturados sob a liderança da primeira-dama, nem equipe institucional, nem agenda pública autônoma.

Entretanto, um conjunto de expectativas morais, de valores e comportamentos era previsto: a consorte do presidente brasileiro deveria ser exemplo de estabilidade, discrição e virtude doméstica, sendo estes valores da sociedade patriarcal, em que apenas o homem pode exercer o poder em toda a sua amplitude, considerados fundamentais para legitimar um regime político recém-instalado.

Registro revelador

É revelador que um dos registros mais significativos deixados por Anna Gabriella seja uma carta com orientações à futura ocupante do Palácio, na qual descreve conselhos práticos sobre a organização da residência presidencial, contratação de empregados e rotina adequada.

Em princípio, o documento pode ser considerado apenas como mais um recorte doméstico. Porém, sob uma lente sociológica, trata-se de um testemunho poderoso de como o espaço privado e o espaço público se entrelaçavam, e ainda se entrelaçam, na perspectiva feminina da época.

A “casa do presidente” era também a casa da República. Administrá-la não era um gesto trivial. Significava também participar, ainda que de forma indireta, da engrenagem simbólica do poder.

Sob uma perspectiva moderna feminina, a trajetória de Anna Gabriella evidencia tanto os limites quanto as relevâncias. Ela não teve espaço para manifestar formalmente sua voz política. Ela não discursou em palanques. Não liderou campanhas, nem coordenou políticas públicas. Contudo, a sua presença ajudou a moldar o imaginário da mulher que participa do Estado brasileiro.

Atuação silenciosa

Num período em que mulheres sequer votavam — visto que o sufrágio feminino somente seria conquistado em 1932 —, ocupar o espaço de primeira-dama já era, paradoxalmente, estar no centro do poder e, ao mesmo tempo, à margem dele. Sua participação foi silenciosa, mas fundadora. Ela inaugurou uma posição e abriu as portas para que outras mulheres, ao longo do século XX e XXI, a ampliassem.

Se compararmos Anna Gabriella a alguma primeira-dama contemporânea, como Rosângela Lula da Silva, a diferença revela muito sobre a evolução da sociedade brasileira. Janja, como é conhecida, assumiu o posto no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva com protagonismo público explícito.

Ela participa de agendas oficiais, articula pautas sociais, fala à imprensa e posiciona-se politicamente. É graduada na Universidade Federal do Paraná e cursou especialização em História e Cidade na mesma instituição, tendo uma trajetória profissional própria. Colabora em ações voltadas ao combate à fome, cultura e direitos das mulheres. Sua presença não se restringe à administração da residência oficial. Janja transita em fóruns nacionais e internacionais como agente política.

Contraste Eloquente

O contraste é eloquente. Enquanto Anna Gabriella operava num mundo em que o poder feminino precisava ser exercido nos bastidores, Janja se expressa em um cenário onde a visibilidade é parte constitutiva do cargo.

Passado e presente se encontram. A primeira viveu num Brasil agrário, oligárquico e profundamente patriarcal, sendo subordinada juridicamente ao marido. A segunda atua num país urbano, constitucionalmente igualitário, no qual mulheres votam, são eleitas, ocupam ministérios e cadeiras no Supremo Tribunal Federal.

Esta ainda é uma esfera de desigualdades, mas já abre um horizonte de possibilidades incomparavelmente mais amplo. Isso não diminui a relevância da campineira que inaugurou o posto. Ao contrário, realça a sua importância histórica. Anna Gabriella foi produto de seu tempo, mas também alicerçou um degrau importante para o futuro.

Seu papel ajudou a consolidar a dimensão familiar e simbólica da Presidência da República. Cada gesto protocolar, cada recepção oficial, cada cuidado com a imagem pública do casal presidencial contribuiu para a construção da autoridade republicana.

Resgate de valor

Resgatar a sua memória é resgatar Campinas como parte da narrativa nacional. O município foi berço de uma elite cafeeira influente, que ofereceu ao país um presidente e também uma primeira-dama que desbravou um espaço feminino dentro da mais alta esfera do poder político.

Em tempos em que se questiona a função e os limites do papel das primeiras-damas, olhar para Anna Gabriella permite compreender que a história não começa na visibilidade midiática. Ela inicia, muitas vezes, na administração silenciosa, na presença constante, na resistência possível dentro das estruturas disponíveis.

Entre o silêncio elegante do século XIX e o protagonismo midiático do século XXI, há uma linha contínua de mulheres que, a seu modo, ocuparam o entorno do poder e o transformaram.

Anna Gabriella de Campos Sales não discursou para multidões, mas, ao atravessar a história como a segunda primeira-dama do Brasil, abriu uma porta que jamais seria completamente fechada. E é justamente frente a este gesto inaugural, contido, discreto e decisivo, que reside a sua força histórica.