Por Ana Carolina Martins
A trajetória dos Patrulheiros Campinas, que hoje, oficialmente, carrega o nome de Centro de Aprendizagem e Mobilização pela Cidadania (CAMPC), é marcada por décadas de atuação na área de inclusão social, formação profissional e abertura de caminhos para o universo do trabalho para centenas de milhares de adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade.
A história da entidade, que em maio deste ano completará 60 anos de sua fundação, tem as suas origens no final da década de 1960, quando o juiz Roland Peres e a empresária e benemérita Maria Angélica Barretos Pyles trouxeram o conceito de patrulheirismo para o município.
O programa começou em uma garagem do antigo Palácio da Justiça, acolhendo e orientando menores que trabalhavam como engraxates nas proximidades do Fórum, tendo a sua primeira turma de 16 jovens passando por formação profissional em 1968.
Pouco tempo depois, em 1970, a administração passou para o Rotary Club de Campinas Sul, que permanece até hoje como gestor voluntário, e a entidade ganhou uma sede própria, em um terreno de cerca de 19 mil metros quadrados doado pela Prefeitura.
Formação para o trabalho
Fundada em 1966, a organização, com presença em Campinas, Louveira e Monte Mor, já impactou mais de 170 mil jovens ao longo de sua trajetória. Hoje, conta com o apoio de mais de 150 empresas e parceiros sociais, atendendo anualmente cerca de 2,5 mil famílias.
O impacto se reflete tanto nas estatísticas de atendimento quanto nas trajetórias de vida de quem passou por lá. Em 2025, cerca de 950 adolescentes participavam do programa "Jovem Aprendiz", enquanto aproximadamente mil jovens estavam engajados nas Oficinas de Formação Geral para o Mundo do Trabalho, que reúne 110 empresas públicas e privadas parceiras, facilitando a colocação e o vínculo inicial profissional dos participantes.
Grande parte dos jovens participantes provém de famílias de baixa renda e são estudantes de escolas públicas. Muitos deles foram, e são, os primeiros de suas famílias a ter um contrato de trabalho formal no início da vida profissional.
Valor social
As trajetórias de ex-participantes reforçam o valor social do projeto. Uma delas é a de José Leopoldino, mais conhecido como "Seo Léo", que começou como patrulheiro ainda adolescente, na década de 1980. Ele transitou por diferentes funções internas e, ao longo de praticamente 30 anos, tornou-se colaborador presente no cotidiano da instituição.
Seu testemunho confirma que os vínculos criados ali ecoam por gerações. Colegas, amigos e familiares dele também se tornaram patrulheiros. José acompanhou mais de 20 mil adolescentes que passaram por atividades sob a sua orientação.
Essa caminhada se repete em muitos outros casos, criando um círculo virtuoso: ex-patrulheiros que ingressaram no mundo do trabalho por meio do programa acabam por consolidar carreiras, retornando como colaboradores, servindo de exemplo para novos participantes e reforçando um ciclo intergeracional de mobilidade social.
Abrindo portas
Alguns ex-aprendizes relatam as suas experiências de efetivação em empresas parceiras ou a aquisição de conhecimentos importantes para a tomada de decisões importantes, como escolher uma carreira e até mesmo ingressar em um curso superior, inclusive com apoio de profissionais que conheceram durante o período de aprendizagem.
Um fator que amplia esse impacto é a parceria de longa data com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O acordo, firmado em 1974, mantém-se sólido e, por meio dele, dezenas de patrulheiros atuam e/ou se formam em ambientes universitários, adquirindo experiência em setores administrativos e, em muitos casos, abrindo portas para oportunidades acadêmicas e profissionais futuras.
Convênio ampliado
Em 2023, um novo acordo ampliou o convênio, que passou a incluir atividades socioeducativas, como cursos preparatórios para vestibular e acesso às bibliotecas da universidade, além de suporte nas áreas de saúde e cultura.
Do ponto de vista educacional, a atuação dos Patrulheiros vai muito além do ingresso no trabalho formal. Os programas incluem oficinas, acompanhamento psicossocial e apoio à continuidade dos estudos. A instituição trabalha com entrevistas sociais e acompanhamento individualizado, buscando ir além da capacitação técnica. A ideia é a de superar as barreiras familiares e sociais que limitam o desenvolvimento dos jovens.
A combinação de formação profissional, experiência prática e suporte socioemocional propicia que os Patrulheiros funcionem como um espaço de construção de identidade, resiliência e protagonismo juvenil.
Muitos participantes relatam que a experiência na entidade proporcionou a eles o primeiro emprego formal, com carteira assinada e direitos garantidos, mas também o desenvolvimento de competências tais como confiança, disciplina e visão de futuro, que são fundamentais para a trajetória educacional e profissional subsequente.
Empresas, participem!
Os números apontam que, apesar de Campinas ter potencial para milhares de vagas de aprendizagem, muitas empresas ainda não cumprem integralmente a cota legal destinada aos jovens, o que limita a absorção total no mercado de trabalho.
Todavia, a organização continua expandindo a sua atuação, com inscrições abertas este ano para adolescentes cursando o Ensino Médio, demonstrando compromisso contínuo com a inclusão de novos públicos.
O impacto social dos Patrulheiros Campinas perpassa estatísticas de atendimento e números de formação, manifestando-se nas vidas transformadas, oportunidades que se abrem aos jovens e suas famílias e na construção de trajetórias sustentáveis de trabalho e estudo.