Em Campinas, a história do Carnaval data de muito antes dos grandes blocos e festas modernas que hoje agitam a agora metrópole. Na segunda metade do século XIX, quando ela ainda era uma cidade pequena, marcada pela lavoura do café e pela intensa presença de imigrantes e trabalhadores livres, as celebrações carnavalescas já ocupavam um lugar singular na vida social.
Registros históricos e estudos acadêmicos apontam que, entre 1871 e 1900, o “entrudo”, festa carnavalesca tradicional de origem europeia, e outras brincadeiras públicas animavam as ruas, mesmo em meio a tensões sociais e disputas por espaço entre diferentes classes e grupos raciais.
“Entrudo”, um vale-tudo
Aqui, abrimos um parênteses para esclarecer a origem do “entrudo”, que tratava-se de uma festa popular trazida ao Brasil pelos portugueses ainda no período colonial, entre os séculos XVI e XVIII. A palavra vem do latim introitu (“entrada”) e se referia originalmente à entrada da Quaresma no calendário cristão. Antes do período de restrições religiosas, valia tudo: comer, beber, brincar e zombar da ordem cotidiana.
O entrudo acontecia nas ruas centrais, próximas às igrejas e mercados. Incomodava autoridades, comerciantes e proprietários e era frequentemente reprimido pela polícia, mas não desaparecia de vez.
Retomando, nesse período, as elites tentaram controlar e “civilizar” a festa segundo padrões europeus, enquanto as camadas populares resistiam e mantinham práticas mais espontâneas e comunitárias.
Tal disputa de sentidos entre o “Carnaval Veneziano”, mais cerimonioso e elitizado, e as manifestações populares, ludicamente desordenadas, revela um tempo em que a festa ainda não havia sido institucionalizada nem grandes desfiles organizados .
Era apenas uma folia de rua, marcada pela presença popular e de elementos culturais que se consolidariam ao longo do século XX. Entre as décadas de 1930 e 1960, o Carnaval de Campinas começou a ganhar contornos próprios, aproximando-se das celebrações que floresciam nas grandes cidades brasileiras da época.
Evento comunitário
Apesar de ainda não existir um “sambódromo” nem a grandiosidade dos desfiles de capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, grupos de moradores e comunidades locais criaram escolas de samba e blocos carnavalescos que transformaram a festa num evento comunitário importante.
A Estrela D’Alva, por exemplo, fundada em 1950, tornou-se uma das primeiras escolas de samba do município, acumulando títulos e mobilizando a população por décadas. Com o passar do tempo, outras agremiações e blocos surgiram e se firmaram como tradicionais.
A Rosa de Prata, que surgiu em meados dos anos 1970, passou a protagonizar desfiles no Carnaval campineiro, com a participação ativa da comunidade em ensaios, criação de samba-enredo, confecção de fantasias e no aprendizado de instrumentos musicais.
Esse circuito de participação comunitária, registrado inclusive em pesquisas acadêmicas, mostra como a festa popular se transformou em um elemento de construção de identidades locais.
Bailes de salão
Para muitos moradores antigos, o Carnaval local também acontecia nas pequenas festas de bairro e bailes de salão nas décadas de 1960 e 1970, em clubes e espaços comunitários, onde marchinhas, sambas e frevos embalavam os foliões até a madrugada. Uma tradição que, em parte, vive na memória e que hoje inspira resgates culturais em blocos e apresentações musicais.
No fim do século XX e início do XXI, agora, como uma metrópole em plena expansão, o Carnaval em áreas como Barão Geraldo, distrito que abriga a Unicamp, começou a ganhar vida própria com os blocos de rua populares. Entre eles, o tradicional Berra Vaca, que desfila desde 1999 nas noites da maior festa popular do país, reunindo milhares de foliões ao som de marchinhas e ritmos variados.
Ao mesmo tempo, a presença universitária influenciou a variedade cultural da folia, com grupos artísticos, performances e intervenções que dialogam com as artes e a música, fazendo do Carnaval de Barão uma expressão híbrida entre tradição popular e criação contemporânea.
Evolução e desenvolvimento
O crescimento urbano também ajudou na diversificação do Carnaval de Campinas. Hoje, além dos blocos de rua e das escolas de samba, há festas em clubes, eventos temáticos e manifestações culturais que ocupam diferentes espaços da cidade durante os dias da festa.
Essa evolução revela o desenvolvimento populacional e econômico da região, assim como também uma trajetória cultural única, na qual a festa carnavalesca acompanhou, e acompanha, as transformações sociais da cidade: de um pequeno centro urbano do interior paulista a uma metrópole com identidade própria e forte atuação comunitária.
A história do Carnaval no município revela um percurso que vai das brincadeiras de rua e do entrudo colonial aos desfiles organizados, aos blocos autônomos e à multiplicidade de manifestações culturais contemporâneas, sustentada por práticas comunitárias, acadêmicas e artísticas que mantêm viva a tradição da folia nas veias dos campineiros.