Poucos passeios conseguem condensar, em pouco mais de uma hora, tantas camadas de memória quanto o trajeto da MariaFumaça que liga Campinas a Jaguariúna. Ao soar do apito e com os primeiros solavancos dos vagões, o tempo parece recuar.
A paisagem urbana cede espaço aos campos e o cheiro de carvão se mistura ao de madeira antiga… Cada quilômetro percorrido reconta um capítulo da formação ferroviária do interior paulista.
Operado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), o percurso é hoje um dos roteiros turísticos ferroviários mais tradicionais do Brasil e um dos mais nostálgicos para quem cresceu ao som dos trilhos cortam bairros, fazendas e cidades.
A locomotiva: ferro e fogo
A estrela do percurso é uma autêntica locomotiva a vapor, construída na primeira metade do século 20, que foi restaurada e mantida em operação por uma equipe especializada de voluntários e técnicos.
Forjada em dezenas de toneladas de aço, ela funciona a carvão e água, produzindo uma fumaça espessa, o que lhe rendeu o carinhoso apelido de Maria-Fumaça.
Cada detalhe da máquina, dos manômetros da cabine aos pistões laterais em movimento constante, ajuda a compreender como o trem foi, durante décadas, o principal motor do desenvolvimento regional. Antes das rodovias, eram os trilhos que escoavam café, abasteciam as cidades e conectavam o interior ao porto.
24 quilômetros de beleza
O percurso entre Campinas e Jaguariúna soma aproximadamente 24 quilômetros, os quais são atravessados sob um ritmo propositalmente lento e tranquilo.
A velocidade reduzida propicia que os viajantes possam observar o cenário com calma, aproveitando para tirar belas fotos, curtir o vento pela janela e se encantar com as áreas verdes, pequenos cursos d’água e trechos urbanos que ainda guardam semelhanças com época da antiga relação cotidiana com o trem.
A viagem costuma durar em torno de 1h30, podendo variar de acordo com as condições operacionais. Ao longo do caminho, estão previstas paradas técnicas programadas e necessárias para a execução das manobras, abastecimento ou cruzamento de via, reforçando a sensação de se estar vivendo uma experiência de outra época.
O embarque tradicional acontece na Estação Anhumas, em Campinas, um espaço que, por si só, já funciona como um museu a céu aberto, com galpões históricos, oficinas e acervo ferroviário.
Vagões contam histórias
Os passageiros viajam acomodados em vagões históricos, dotados de bancos de madeira, janelas amplas e acabamento que remete aos tempos áureos da ferrovia. Em alguns passeios, músicos se apresentam durante o trajeto, brindando a todos com repertórios que vão das modas de viola e chorinho aos clássicos brasileiros, criando uma atmosfera encantadora durante o roteiro.
É comum ver famílias inteiras, casais, turistas de outras cidades e até antigos ferroviários compartilhando histórias, fotografias e lembranças. Assim, o passeio deixa de ser apenas um deslocamento, transformando-se em um momento de convivência.
Números que impressionam
Ao longo de mais de três décadas de operação turística, estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham viajado pelo trajeto Campinas-Jaguariúna a bordo da Maria-Fumaça.
Em fins de semana e datas comemorativas, cada viagem pode transportar algumas centenas de passageiros, e a procura costuma ser alta, especialmente em feriados.
Esses números ajudam a dimensionar a importância do passeio não apenas como atração turística, mas como instrumento efetivo de preservação do patrimônio ferroviário brasileiro.
Em Jaguariúna: acolhimento
O desembarque acontece na histórica Estação Jaguariúna, restaurada e integrada ao cotidiano do município. O local costuma receber feiras, apresentações culturais e atividades para visitantes. Muitos aproveitam a parada para caminhar pelo entorno, almoçar em restaurantes próximos ou apenas apreciar o movimento da estação.
Experiência sensorial
Mais do que um roteiro turístico, a MariaFumaça Campinas–Jaguariúna é uma experiência sensorial e emocional. O som ritmado das rodas, o vapor escapando pelas válvulas, o balanço dos vagões e o contato direto com a história criam uma conexão rara entre passado e presente.
É um convite para desacelerar, olhar pela janela e lembrar de um tempo em que viajar também era parte da aventura. Para Campinas, Jaguariúna e toda a região, o passeio segue como um trilho vivo de memória, orgulho e identidade.