Por: Ana Carolina Martins

A ‘galinha’ que ‘nasceu’ em Campinas e ganhou o mundo

Operação apura acesso ilegal a informações do SUS | Foto: Divulgação

Enquanto Campinas se transformava ao longo do século 20 em um dos principais polos urbanos e econômicos do interior paulista, duas histórias muito diferentes, mas, ao mesmo tempo, complementares, desenrolaram-se na cidade.

De um lado, a consolidação da Construtora Lix da Cunha, empresa responsável por obras que ajudaram a esculpir a paisagem urbana e a infraestrutura regional do município. De outro, nascida da observação cotidiana e do saber manual, a criação singela e engenhosa da galinha de arame, um objeto doméstico que atravessou fronteiras e gerações.

A galinha de arame surgiu pelas mãos do lavrador e artesão Sebastião Ezequiel da Silva (1900–1960), lavrador que transformou uma ideia simples, inspirada na confecção de uma cestinha de arame, em um objeto funcional, resistente e carregado de identidade rural.

Pensada, inicialmente, para guardar ovos, a peça rapidamente se popularizou e se destacou pelo formato lúdico e pelo uso eficiente e prático.

Encontro improvável

O objeto fabricado com arame cruzou, de maneira quase simbólica, o caminho da família Lix da Cunha. A primeira cliente e incentivadora da criação foi Ilse da Cunha Henry, filha do engenheiro e arquiteto Lix da Cunha, nascido em Mogi-Mirim em 1896 e falecido em Campinas em 1984, figura central no desenvolvimento urbano da cidade e fundador da construtora que leva, até hoje, o seu nome.

Em 1961, a Câmara Municipal conferiu a Lix da Cunha o título de cidadão campineiro, pelo trabalho desempenhado e projetos que se tornaram autênticos patrimônios arquitetônicos de Campinas, como a Casa de Saúde, o prédio do Centro de Ciências Letras e Artes (CCLA), o Palácio da Justiça, a sede da Academia Campinense de Letras (ACL), entre outros.

Enquanto Lix da Cunha projetava pontes, estradas e edificações que sustentariam o crescimento da urbe, Ilse reconheceu, naquele objeto feito de arame e moldado à mão, o valor da inventividade e criatividade popular.

Seu apoio representou mais do que uma compra: foi um gesto de legitimação cultural, aproximando universos que raramente se encontram: o da grande engenharia com o do artesanato doméstico.

Território fértil

Esse encontro não foi casual. A mesma Campinas que abrigava grandes canteiros de obras, impulsionados pela então construtora, era também uma cidade de quintais, cozinhas, feiras e ofícios manuais. Nesse ambiente híbrido, a galinha de arame encontrou espaço para crescer.

O saber artesanal foi transmitido à filha de Sebastião, Maria Ezequiel da Silva Nascimento, que, após se casar em 1948 com o cozinheiro campineiro Benedito do Nascimento, transformou a produção em uma atividade familiar.

O marido e os filhos — José Benedito, Luiz, Walter Luiz, Nelson, Carmen Sílvia e Rosângela do Nascimento — passaram a integrar o processo, mantendo a técnica original e ampliando a circulação das peças, que continuavam sendo feitas manualmente, respeitando a técnica original, mas agora em escala maior, sem perder o caráter artesanal.

Utilitário e símbolo cultural

Assim como as obras da Construtora Lix da Cunha ajudaram a estruturar fisicamente a cidade, a galinha de arame passou a ocupar um espaço simbólico na memória afetiva de Campinas.

A participação da família em Exposições de Artesanato e as demonstrações de produção ao vivo no antigo Teatro Municipal levaram o público a conhecer não apenas o objeto final, mas o gesto artesanal que o havia originado.

A família conquistou vasta clientela ao participar de Exposições de Artesanato e realizar demonstrações de produção ao vivo no antigo Teatro Municipal de Campinas, consolidando a galinha de arame como símbolo da cultura popular e da memória artesanal da cidade.

A ‘galinha’, assim, deixou de ser apenas um porta-ovos para se tornar um símbolo da cultura popular, circulando por outros estados e, posteriormente, alcançando reconhecimento fora do país, como exemplo do design artesanal brasileiro.

Dois legados, uma cidade

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Lix da Cunha projetou o Edifício Santana, no centro de Campinas, reconhecido historicamente como o primeiro arranha-céu da cidade | Foto: Centro de Memória da Unicamp/CC BY-SA 4.0

Se a Construtora Lix da Cunha deixou marcas visíveis no concreto, no asfalto e na paisagem urbana, a galinha de arame deixou a sua marca no cotidiano, nas cozinhas e na memória coletiva. Ambas as histórias falam de construção — uma em grande escala, outra em escala mínima, mas não menos importante. Uma voltada à infraestrutura, outra à vida doméstica.

Entre edifícios e fios de arame, Campinas revelou sua vocação para unir técnica e criatividade, progresso e tradição. E, nesse encontro improvável, uma simples galinha feita à mão encontrou espaço para se tornar patrimônio cultural.

Do Brasil para o Mundo

E-commerce e marketplaces internacionais comercializam a peça como ‘vintage’, sendo descritos em outros países como "Cesta de Ovo Retrô", "Artesanal", ou "Handmade".

A peça é comercializada ainda em lojas de decoração rústica ou feiras de artesanato internacional, sendo valorizada pela sua característica de "arte popular", que remete à vida doméstica, fertilidade e nutrição.

Geralmente, a galinha é comercializada como um objeto de arame, às vezes galvanizado para evitar corrosão, e vendida com um apelo "retrô". O público inclui colecionadores de artesanato, pessoas que buscam decoração de cozinha de fazenda (farmhouse style) e lojas de presentes temáticos

Saiba mais:

- Funcionalidade: o design em arame permitia que os ovos fossem lavados e secos dentro do próprio cesto.

- Artesanato: no Brasil, a galinha de arame se transformou em um objeto de decoração funcional, muito popular em cozinhas de estilo rústico ou colonial.

- Variações: existem versões que reciclam materiais, como potes de plástico para criar o corpo da galinha com pés de arame, sendo uma forma de artesanato sustentável.