Erguido em 1806, período em que Campinas ainda se organizava enquanto importante entreposto agrícola do interior paulista, o casarão da antiga Fazenda Mato Dentro permanece como um dos mais expressivos testemunhos físicos do passado rural da cidade.
Hoje, inserido no Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, criado em 1987, a edificação atravessou mais de 200 anos de transformações urbanas sem perder a sua capacidade de contar histórias e de provocar, no visitante, a sensação de retorno a um tempo em que o ritmo de vida era ditado pela terra.
Imponente, desde a primeira vista, o casarão chama a atenção pelo seu porte e arquitetura colonial, marcada por paredes espessas, grandes vãos e soluções construtivas típicas do início do século XIX.
Construída para ser a sede administrativa e residencial da fazenda, a propriedade ocupava uma posição central na dinâmica econômica da região, em um período em que Campinas se consolidava como uma das áreas agrícolas mais prósperas da então Província de São Paulo.
Bonifácio do Amaral
O interior do casarão guarda um dos seus maiores tesouros: a preservação integral da mobília original, que pertencia à família de Joaquim Bonifácio do Amaral, personagem fundamental da trajetória da cidade, sendo mais tarde reconhecido como o Barão de Campinas.
Amaral nasceu em 1814 e recebeu o título de Barão e Visconde de Indaiatuba. Conhecido pela coragem e patriotismo, fez parte da tropa do capitão Boaventura do Amaral, que combateu as forças liberais revolucionárias na Batalha de Venda Grande. Também liderou o antigo Partido Liberal e elegeu-se vereador em 1849.
Após o mandato, foi nomeado um dos “vice-presidentes” da então Província de São Paulo. Dono de terras em Campinas e Amparo, fundou a colônia alemã na Fazenda Sete Quedas, uma de suas propriedades.
Hóspedes imperiais
O barão hospedou em seu solar, em duas ocasiões, o casal imperial D. Pedro II e Dona Teresa Cristina Maria, cujo cognome era "Mãe dos Brasileiros". A primeira, na inauguração da linha da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, em 1875.
E a segunda, três anos mais tarde, quando o casal excursionava pelo interior da província de Campinas, que ostentava a alcunha "Princesa do Oeste", devido à riqueza que ela gerava com a cafeicultura. Bonifácio do Amaral casou-se com a sua sobrinha, Ana Guilhermina Pompeu do Amaral. Ele morreu aos 69 anos, em Campinas.
Durante décadas, a Fazenda Mato Dentro foi símbolo de prosperidade e influência econômica. Com o avanço da urbanização e as mudanças no uso do solo, a área passou por um processo de ressignificação, o que culminou, em 1987, na criação do Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim.
A transformação marcou uma virada histórica. O espaço que antes era privado e produtivo passou a cumprir uma finalidade pública, voltada ao lazer, à preservação ambiental e à educação.
Nem tudo são flores…
Atualmente, o parque é um dos principais espaços verdes de Campinas, atraindo diariamente um público diverso, formado por famílias, esportistas, estudantes, idosos e visitantes de diferentes regiões que buscam atividades junto à natureza.
No entanto, o casarão da antiga Fazenda Mato Dentro, imóvel tombado, onde anteriormente funcionava um museu que podia ser visitado pela população, está fechado, convivendo com ruínas e aguardando projetos de restauração e requalificação há mais de três décadas.
O parque, cujo projeto paisagístico é assinado pelo artista plástico e paisagista brasileiro, Roberto Burle Marx, e que foi criado para recuperar a área da antiga fazenda e atuar como um grande espaço verde urbano, vem passando por um período difícil. A população aponta uma situação de abandono, com relatos de mato alto e necessidade urgente de reformas.
Questionada, a Prefeitura de Campinas, por meio da Secretaria de Serviços Públicos, informou que está pronto o projeto executivo de restauração do casarão do Parque Ecológico, estimado em R$ 15 milhões, e que busca recursos para execução da obra. Em relação ao mato, a equipe de manutenção faz a roçagem constantemente no local, assim, será feita uma verificação e, se for o caso, tomadas as devidas providências.
Apesar disso, a área, de 2.850.000 m² (285 hectares), com cerca de 110 hectares abertos para visitação, amplas áreas gramadas, lagos, trilhas e caminhos arborizados, constitui-se em um refúgio incrustado na paisagem urbana. Ele é especialmente procurado pela população nos fins de semana e feriados, para caminhadas, corridas, passeios de bicicleta, piqueniques e práticas de lazer ao ar livre.
Guardião silencioso
A existência do espaço verde contribui para a preservação de fragmentos da história de Campinas que poderiam ter sido apagados pelo crescimento urbano acelerado. O casarão, cercado por áreas verdes e espelhos d’água, permanece como um guardião silencioso dessas narrativas.
Além de um belo parque, o Monsenhor Emílio José Salim representa um encontro entre natureza, história e vida cotidiana e, mais do que um edifício antigo, o casarão da Fazenda Mato Dentro é um patrimônio vivo, que ajuda à população a compreender as suas origens, valorizar a sua trajetória e projetar o futuro sem romper com as próprias raízes.