Contar a história do Colégio Culto à Ciência é resgatar um dos capítulos mais inspiradores da trajetória de Campinas e do Brasil no que diz respeito à educação, cultura e patrimônio. Fundado em 12 de janeiro de 1874, o Culto à Ciência é reconhecido como a escola mais antiga em funcionamento no mesmo prédio no período republicano brasileiro. Uma testemunha viva de quase um século e meio de transformações sociais, políticas e educacionais.
Fundado por idealistas integrantes da Loja Maçônica Independência, como Antônio Pompeu de Camargo, Manoel Ferraz de Campos Salles, Jorge Guilherme Henrique Krug e outros, o colégio nasceu com um propósito ousado para a época, o de oferecer um ensino laico, com qualidade e caráter progressista, que incentivasse o livre pensamento e a formação intelectual dos jovens em um país ainda sob o regime monárquico.
Inspiração iluminista
A origem da instituição teve como inspiração o espírito iluminista e positivista que permeava a sociedade campinense no século XIX. Assim, o grupo formado por fazendeiros, comerciantes e intelectuais, decidiu, em 1869, criar a Sociedade Culto à Ciência, com a finalidade de promover um ensino laico, de qualidade e acessível, que contribuísse para o aperfeiçoamento moral e intelectual da sociedade da época.
Originalmente uma escola particular voltada para meninos, com cursos preparatórios e exigentes exames de admissão amplamente divulgados nos jornais da época, o Culto à Ciência logo se tornou sinônimo de educação rigorosa e de qualidade. Em 1892, devido a dificuldades financeiras, a instituição passou para a administração pública.
A construção, que abriga o colégio ainda hoje, projetado pelo engenheiro Guilherme Krug, apresenta traços marcantes da arquitetura clássica francesa, com janelas mansardas e tijolos à vista que conferem ao edifício imponência e charme.
Para aqueles que não conhecem o termo, mansarda, em arquitetura, é a janela disposta sobre o telhado de um edifício para iluminar e ventilar seu desvão ou sótão, de modo que ele possa ser usado como mais um cômodo da construção.
Marco cultural
Desde a sua inauguração, a ideia era a de criar um espaço que fosse muito além da aprendizagem. Ele deveria ser também um marco cultural, com salas de aula, biblioteca e serviços administrativos que foram preservados ao longo das décadas.
Como símbolo do papel civilizatório da educação, o Culto à Ciência teve papel central na vida intelectual da cidade. Originalmente uma escola particular para meninos, na década de 1890 passou a fazer parte do sistema público de educação, quando a sua administração foi transferida para o poder público.
A partir de 1896, o colégio passou a integrar a rede estadual de ensino no então Ginásio de Campinas, abrindo portas para estudantes de diferentes classes sociais e consolidando a sua vocação de escola pública de excelência.
Celebridades
Ao longo de sua história, a instituição formou e acompanhou grandes figuras que marcaram o Brasil em diversos campos e áreas. Entre seus ex-alunos encontram-se Guilherme de Almeida, poeta, ensaísta e jornalista; Alberto Santos Dumont, considerado o “pai da aviação"; Júlio de Mesquita Filho, jornalista e fundador do jornal O Estado de S. Paulo; o apresentador de televisão Fausto Silva; a atriz Regina Duarte; além de intelectuais e cientistas como Marcelo Damy e Renato M.E. Sabbatini.
Essa lista de nomes de relevância confirma o impacto profundo que a escola teve no cenário nacional. Ao longo dos anos muitos ex-alunos e ex-professores contribuíram para a construção do imaginário coletivo sobre a escola — inclusive em depoimentos reunidos no documentário “Culto Luminoso”, que resgata memórias, mobiliário, instrumentos e o próprio espírito de humanismo que moldou a instituição desde o século XIX.
O prédio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), órgão do Governo do Estado de São Paulo que protege e valoriza o patrimônio cultural paulista, em 1988; e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC) posteriormente, garantindo proteção legal à sua preservação enquanto patrimônio arquitetônico e educacional.
Obras de restauro
Ao longo dos anos, foram realizadas obras cuidadosas de restauro. Entre elas, a grande reforma concluída em 2010, financiada a partir de recursos estaduais, mantendo a integridade física e histórica do imóvel sem descaracterizá-lo. A escola abriga um acervo riquíssimo, com mais de 20 mil volumes, incluindo obras raras dos séculos XVII e XVIII, que integram parte de um Centro de Memórias e atraem pesquisadores interessados na história da educação e cultura brasileiras.
Atualmente, a Escola Estadual Culto à Ciência atende entre 500 a 1.000 alunos, exclusivamente no Ensino Médio, em regime integral, com laboratórios de ciências, projetos pedagógicos inovadores e uma comunidade escolar que vê a sua história como um estímulo para a excelência.
O centro de memórias e o acervo bibliográfico continuam abertos a pesquisadores, reforçando a identidade da instituição como escola e centro vivo de memória educacional e cultural.