Por: Ana Carolina Martins

Cândido Ferreira: a travessia da exclusão ao pertencimento

Sede do Serviço de Saúde Cândido Ferreira, localizado no distrito de Sousas, em Campinas, é um patrimônio histórico tombado | Foto: Rodrigo Rocatto/CC by SA 4.0

O Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira atravessa mais de um século como um dos capítulos mais sensíveis e profundos da história de Campinas. Fundado em 1917, por iniciativa da sociedade civil, e inaugurado oficialmente em 1924, o hospital nasceu em um tempo em que o sofrimento psíquico era tratado comumente com isolamento e silêncio.

Durante grande parte do século 20, o Cândido refletiu os modelos psiquiátricos vigentes, com internações prolongadas e uma lógica hospitalocêntrica - ou seja, um modelo de atenção à saúde que coloca o hospital como o centro principal e o "universo" do cuidado médico. Mas foi justamente ali que Campinas protagonizou uma das mais importantes viradas da saúde mental brasileira.

Reforma Psiquiátrica

A partir dos anos 1990, com a consolidação da Reforma Psiquiátrica instituída no País, que iniciou como um movimento social no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, impulsionado pela luta por redemocratização e críticas aos hospitais psiquiátricos, tendo por seu marco legal fundamental a Lei 10.216/2001 (Lei Antimanicomial). A nova legislação redirecionou o modelo de tratamento para o cuidado em liberdade e criou os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), como substituição aos manicômios.

Assim, o Cândido passou por uma transformação profunda. A mudança não foi apenas administrativa ou arquitetônica, foi ética, clínica e afetiva. O Cândido Ferreira estruturou e adotou o cuidado dos pacientes a partir do Projeto Terapêutico Singular, com equipes de multiprofissionais que enxergassem o paciente para além do seu diagnóstico.

Práticas integrativas

 

Macaque in the trees
Atividades e convivência fazem parte do tratamento aos assistidos pelo Serviço de Saúde Cândido Ferreira, que fica em Sousas | Foto: Divulgação/Cândido Ferreira

Oficinas de arte, música, teatro, literatura, jardinagem e trabalho passaram a fazer parte do tratamento, lado a lado com o acompanhamento médico e psicológico. Terapias não convencionais e práticas integrativas mostraram, na prática, que cuidar da saúde mental é também promover vínculos humanos, autonomia e pertencimento.

Silvio Burza, de 83 anos, chegou a passar por tratamentos com eletrochoque e até o uso de camisa de força. Diagnosticado com transtorno bipolar, é um defensor empenhado do Serviço de Saúde do Cândido Ferreira, o qual, afirma ele, salvou a sua vida. “Foram anos frequentando o serviço, onde fiz lindas amizades e trabalhei. Pude me desenvolver e contribuir junto à sociedade”, lembra.

Ele elogia muito o serviço, garantindo que foi muito feliz frequentando o espaço. “Trata-se de um trabalho maravilhoso, com oficinas de laborterapia. Eu, até recentemente, estava trabalhando com culinária, produzindo salgados para eventos e para vender na cantina. Esse trabalho, para o qual recebemos um valor de bolsa, ajuda a nos integrar e sentir que somos valiosos para a sociedade “, afirma.

Hoje, o Cândido Ferreira é responsável pela gestão de cerca de 40 serviços em Campinas, entre eles, CAPS III adultos, CAPS Álcool e Drogas, CAPS Infantojuvenis, residências terapêuticas, centros de convivência, consultórios na rua e projetos de geração de renda.

Milhares de pessoas passam diariamente por essa rede, que atende desde crianças e adolescentes até adultos em sofrimento psíquico intenso. Apenas a demanda infantojuvenil nos CAPS cresceu mais de 50% nos últimos anos, refletindo uma crise silenciosa de saúde mental que atinge famílias inteiras.

Referência nacional

O trabalho desenvolvido consolidou o Cândido Ferreira como referência nacional e internacional em atenção psicossocial. O antigo hospital tornou-se também patrimônio cultural, abrigando um Museu Vivo da Saúde Mental, onde atividades são promovidas e abertas à população.

Mas essa história de avanços passou a ser atravessada, nos últimos anos, por uma crise financeira profunda. Em 2025, o impasse entre a instituição e a Prefeitura de Campinas em torno do valor do convênio que financia grande parte dos serviços de saúde mental expôs fragilidades estruturais.

Colapso financeiro

O Cândido passou a operar com déficit mensal estimado em mais de R$ 1,3 milhão . A instituição reivindicava um reajuste que acompanhasse a inflação acumulada e os custos reais da rede, enquanto o município oferecia percentuais considerados insuficientes para garantir a sustentabilidade dos serviços até então estruturados.

A tensão se agravou a ponto de a direção do Cândido alertar para o risco concreto de colapso financeiro, com possibilidade de cortes de equipes, redução de atendimentos e, no limite, encerramento de serviços essenciais.

A reação da sociedade foi imediata e intensa. Usuários, familiares, trabalhadores da saúde, movimentos da luta antimanicomial, sindicatos, conselhos de saúde e vereadores ocuparam as ruas, redes sociais e espaços institucionais em defesa da instituição.

Cenário indefinido

Em 2026, o cenário segue indefinido, mas alguns elementos se desenham. A continuidade dos serviços está, por ora, assegurada por decisões judiciais e negociações em curso, acompanhadas pelo Ministério Público. Prefeitura e instituição afirmam manter diálogo para redefinir valores, metas e modelos de gestão. No entanto, a pressão social permanece viva, exigindo transparência, financiamento adequado e compromisso político com a saúde mental.

Questionada, a Prefeitura de Campinas, por meio da assessoria de imprensa, informou que, atualmente, a Secretaria de Saúde está assumindo parte dos serviços prestados pelo Cândido Ferreira para garantir o fortalecimento da rede, e que a instituição segue prestando serviço também.