Há dez anos, Campinas não realiza desfiles oficiais de escolas de samba. O último Carnaval com apresentações organizadas aconteceu em 2015, encerrando um ciclo que, por décadas, integrou o calendário cultural da cidade e mobilizou milhares de pessoas. Desde então, a ausência dos desfiles revela uma mudança estrutural na forma como o Carnaval é organizado, financiado e vivido no município.
Durante boa parte do século XX, os desfiles foram o eixo central da festa. A Avenida Francisco Glicério, no Centro, consolidou-se como a principal passarela do samba campineiro, reunindo escolas, público e comércio local. As agremiações funcionavam como núcleos culturais permanentes, mobilizando bairros com ensaios, eventos e ações comunitárias que fortaleciam vínculos de identidade e pertencimento.
O processo de esvaziamento dos desfiles, no entanto, não ocorreu de forma abrupta. Para o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Campinas (Liesca), Edson de Freitas Ferreira, conhecido como Edson "Joia", um dos fatores centrais foi a mudança do local tradicional da festa ainda na década de 1990. "Com a saída da Glicério e a ida para o Tancredão, um espaço mais afastado do Centro, muita gente começou a se desligar, tanto o público quanto os próprios componentes das escolas", avalia.
A esse deslocamento somaram-se problemas estruturais das próprias agremiações, como dificuldades administrativas e falhas na prestação de contas, além da ausência de políticas públicas contínuas para o Carnaval. O desgaste foi gradual e se acumulou ao longo dos anos, até ficar evidente em 2015, quando os desfiles retornaram à Glicério sem a estrutura necessária. "Não havia arquibancadas nem iluminação adequada. Ali ficou claro que não daria mais certo", afirma Joia.
Além disso, as mudanças nas regras nacionais de financiamento agravaram o cenário. O repasse direto de recursos públicos deixou de ser permitido, obrigando cidades a buscar novos modelos de custeio. Sem um sambódromo, uma pista fixa de desfile ou espaços estruturados para ensaios e guarda de carros alegóricos, Campinas passou a enfrentar dificuldades para atrair patrocínios privados e manter a cadeia produtiva do Carnaval.
Apesar da ausência de desfiles oficiais, quatro escolas seguem mantendo viva a tradição do samba em Campinas: Estrela D'Alva, Rosa de Prata, Leões da Vila Padre de Anchieta e Unidos do Shangai. Elas realizam atividades nos bairros e mantêm vínculos comunitários. Em 2026, a Estrela D'alva, a mais antiga da cidade, com 75 anos de história, realizará um desfile simbólico, com fantasia e samba-enredo, como forma de preservar a memória da festa.
Para Joia, a perda das escolas de samba vai além do aspecto cultural. "Escola de samba é vida para a comunidade. É inclusão, é formação, é cultura. Você consegue trabalhar com jovens, tirar da marginalidade, além de gerar emprego e renda", afirma. Segundo ele, o Carnaval também cumpre um papel social e emocional.
Enquanto os desfiles desapareceram, o Carnaval passou a se reorganizar de forma descentralizada. Os blocos de rua ganharam força e hoje ocupam diferentes regiões da cidade.
Diante desse cenário, a Liesca trabalha na construção de um projeto de retomada dos desfiles oficiais em 2027. A proposta, chamada de Carnaval Solidário, começa neste ano de 2026 e aposta na mobilização social como estratégia de reconstrução da festa. A ideia é promover ações solidárias e eventos ao longo do ano, criando um fundo financeiro capaz de viabilizar novamente o desfile competitivo.
Dez anos após o último desfile, o silêncio da antiga passarela do samba contrasta com a vitalidade dos blocos que ocupam as ruas."Não concordo com a ideia de que Campinas só comporta bloco. A cidade tem, sim, capacidade de realizar um desfile oficial de escolas de samba", defende.