A participação em atividades religiosas e os vínculos comunitários influenciam as escolhas políticas dos evangélicos e contribuem para moldar suas preferências eleitorais, sem determinar o voto ou eliminar a diversidade de opiniões do grupo.
A conclusão é de uma tese de doutorado defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que analisou os mecanismos sociais envolvidos na formação política desse eleitorado e o avanço de sua representação no Congresso Nacional.
O estudo foi desenvolvido pela pesquisadora Marcela Gimenes Tanaka, sob orientação da professora Rachel Meneguello, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Segundo Tanaka, a religião sempre integrou a esfera pública brasileira, mas ganhou relevância como objeto de estudo político também por sua atuação como instrumento de poder.
O crescimento da participação evangélica no Legislativo acompanha a expansão demográfica do segmento. Dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) mostram que a Frente Parlamentar Evangélica, criada em 2003 com 50 deputados federais e um senador, chegou a 220 deputados e 26 senadores na legislatura de 2023 a 2027.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os evangélicos passaram de 3,4% da população brasileira, em 1950, para 26,9%, em 2022. No mesmo intervalo, a proporção de católicos recuou de 93,5% para 56,7%.
Socialização
A tese considera que as preferências políticas são construídas por meio de experiências e aprendizados coletivos. Nesse processo, a convivência nas igrejas tem papel relevante, especialmente entre pessoas que se convertem na vida adulta e incorporam novos vínculos e referências sociais.
A frequência a cultos, escolas dominicais, grupos de jovens e ministérios de música fortalece visões de mundo compartilhadas. Essas referências, conforme a pesquisadora, funcionam como atalhos cognitivos, utilizados para simplificar decisões sobre temas complexos, diante do tempo e do interesse limitados para acompanhar a vida pública.
O sentimento de ameaça à existência do grupo também aparece como fator de mobilização. A autora recupera registros da imprensa evangélica de 1985, durante a redemocratização e os preparativos para a Assembleia Nacional Constituinte.
Na época, o jornal Mensageiro da Paz, ligado à Assembleia de Deus, defendia a escolha de candidatos comprometidos com a comunidade religiosa e a preservação de valores morais.
Confiança institucional
A pesquisa identificou diferenças na relação entre religiosidade e confiança nas instituições. Entre os católicos entrevistados, a maior importância atribuída à fé esteve associada a menor confiança institucional. Entre os evangélicos, a relação observada foi inversa.
Na avaliação de Tanaka, a ocupação de espaços públicos por representantes evangélicos também contribui para conferir legitimidade às instituições, como o Congresso Nacional e o Judiciário, responsáveis pela organização da vida política e social.
A pesquisadora ressalta que o segmento não constitui um eleitorado homogêneo nem tem o voto automaticamente determinado por lideranças religiosas. Correntes pentecostais e neopentecostais, como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, têm participação relevante nesse cenário.
A resistência à utilização dos templos para fins eleitorais também é expressiva. Pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, em 2026, aponta que entre 80% e 91% dos evangélicos rejeitam indicações de candidatos ou debates partidários nas igrejas, conforme a denominação.
Segundo Tanaka, as diferenças entre as correntes teológicas ajudam a explicar essa posição. Em denominações que não consideram adequado o debate político-partidário nos templos, persistem críticas ao uso da religião como instrumento eleitoral.
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