A partir de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi lançado na última terça-feira, 7 de abril, Dia Mundial da Saúde, o Memorial Digital da Pandemia de Covid-19, uma plataforma digital nacional que reúne registros científicos, sociais e culturais sobre a crise sanitária no Brasil. A iniciativa integra o Memorial da Pandemia criado pelo Ministério da Saúde, inaugurado no Rio de Janeiro na mesma data, em um projeto conjunto que busca preservar a memória das mais de 700 mil vítimas da doença e das experiências vividas durante o período. (Para acessar o memorial, clique aqui).
O portal na internet foi desenvolvido no Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp em parceria com a a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). A plataforma organiza e disponibiliza gratuitamente depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, documentos normativos e publicações científicas relacionadas à pandemia. O acervo reúne tanto registros institucionais quanto memórias produzidas pela sociedade civil, incluindo comunidades indígenas, movimentos sociais e grupos periféricos.
Rio de Janeiro
O Memorial da Pandemia, lançado pelo Ministério da Saúde, é um espaço de memória localizado no edifício do Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS), no Rio, reaberto depois de quase quatro anos de obras de recuperação e investimento de cerca de R$ 15 milhões.
Duas instalações foram os destaques do lançamento. Uma delas reúne pilastras com letreiros digitais, em que aparecem nomes das vítimas da doença, seguidos de informações sobre a idade e a cidade onde viviam. A outra, estruturada em alumínio naval, forma quatro silhuetas humanas de mãos dadas, e representa a união da sociedade para enfrentar a pandemia. O Memorial Digital da Pandemia da Unicamp foi lançado no mesmo evento.
O acervo dará origem a uma exposição itinerante que passará por seis capitais, entre maio e janeiro de 2027, com início em Brasília e encerramento no Rio de Janeiro.
“O Brasil viveu uma crise sanitária e uma crise de responsabilidade pública durante a pandemia. O negacionismo custou vidas. A ciência já demonstrou que grande parte das mortes poderia ter sido evitada se tivéssemos seguido as evidências, incentivado a vacinação e protegido a população”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
“Preservar essa memória é essencial para que o Brasil nunca mais repita esse erro e para que a defesa da ciência e da vida seja sempre um princípio inegociável na condução da saúde pública”, completou.
Está prevista para junho, no CCMS, a exposição “Vida Reinventada”, com curadoria da ex-ministra da Saúde Nísia Trindade. A proposta é trazer uma leitura das respostas da sociedade à pandemia, a partir de uma articulação entre memória, ciência, arte e justiça.
Memorial Digital
O projeto do memorial digital teve início ainda nos primeiros meses de 2020, a partir de uma pesquisa coordenada pelo professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) Thiago Nicodemo, que buscava responder como preservar, no futuro, as fontes capazes de contar a história da pandemia. A iniciativa começou de forma experimental e, ao longo dos anos, mobilizou pesquisadores e estudantes até se consolidar como uma infraestrutura pública de memória digital.
Durante o desenvolvimento, os pesquisadores mapearam mais de 120 iniciativas de registro da pandemia no Brasil, revelando um movimento amplo e descentralizado de produção de memória. Fotos, relatos, vídeos e conteúdos publicados em redes sociais passaram a ser organizados por diferentes grupos, muitas vezes de forma voluntária.
Além de reunir esse material, o memorial também responde a um desafio central: a preservação de conteúdos digitais, sujeitos à perda por falhas tecnológicas, obsolescência de plataformas ou falta de armazenamento adequado. A proposta é garantir que essas informações permaneçam acessíveis ao longo do tempo.
A iniciativa ganhou dimensão institucional a partir de 2024, quando o Ministério da Saúde passou a integrar o projeto, em parceria com o Ministério da Cultura e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Como parte dessa articulação, também foi inaugurado no Rio de Janeiro o Memorial da Pandemia, instalado no Centro Cultural do Ministério da Saúde, que reúne exposições físicas em homenagem às vítimas da Covid-19.
Entre os destaques do espaço estão instalações com os nomes das vítimas e obras que simbolizam a resposta coletiva à crise sanitária. O projeto também prevê uma exposição itinerante que deve percorrer seis capitais brasileiras entre maio deste ano e janeiro de 2027.
Guia Nacional
No mesmo evento de lançamento, o Ministério da Saúde apresentou ainda o Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid no Sistema Único de Saúde (SUS), elaborado em parceria com a Fiocruz, com orientações para diagnóstico e tratamento de sequelas da doença.
Para pesquisadores envolvidos no projeto, preservar a memória da pandemia é também uma forma de enfrentar o risco de apagamento histórico e de refletir sobre os impactos sociais, políticos e científicos da crise sanitária no país.