Por Moara Semeghini
Campinas foi um dos territórios onde começaram a ser desenvolvidas, ainda nos anos 1980, experiências que ajudariam a moldar o Sistema Único de Saúde (SUS), oficializado na Constituição de 1988. Em um contexto de forte fragmentação entre serviços municipais, estaduais e federais, iniciativas locais buscaram integrar o atendimento e organizar a rede pública, antecipando princípios que mais tarde se tornariam estruturantes do sistema, como a universalidade, a integralidade e a descentralização.
Naquele período, a assistência à saúde no Brasil era marcada pela divisão entre diferentes instituições que atuavam de forma isolada, o que dificultava o acesso e comprometia a eficiência do atendimento. Em Campinas, gestores, profissionais e instituições passaram a discutir alternativas para superar esse modelo fragmentado, dando início a experiências de articulação entre os diferentes níveis de atendimento.
"O sistema era muito fragmentado, cada instituição funcionava isoladamente. A proposta era integrar esses serviços e organizar melhor o atendimento à população", relembra o sanitarista Nelson Rodrigues dos Santos, que participou diretamente desse processo na cidade.
Uma das principais iniciativas foi o Pró-Assistência, que reuniu instituições como o antigo INAMPS, a Secretaria Estadual de Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde e hospitais universitários, como os da PUC-Campinas e da Unicamp. A proposta era construir uma atuação conjunta, criando canais de diálogo e cooperação entre os diferentes setores da saúde.
Embora não tenha promovido mudanças estruturais imediatas, a experiência consolidou a ideia de integração entre serviços e contribuiu para a formulação de um modelo mais articulado de atenção à saúde. Esse tipo de iniciativa local dialogava com o movimento nacional da Reforma Sanitária, que defendia a saúde como direito universal e dever do Estado.
O debate ganhou força ao longo dos anos 1980 e culminou na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, considerada um marco na formulação das diretrizes do SUS. Dois anos depois, a Constituição Federal incorporou essas propostas e estabeleceu as bases do sistema público de saúde brasileiro.
Décadas após esse processo, o SUS se consolidou como a principal política pública de saúde do país, responsável por garantir atendimento gratuito à população. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados ao financiamento, à demanda crescente e às dificuldades de acesso em algumas áreas.
Diante desse cenário, Campinas volta a ser palco de mobilização em defesa do sistema. Nesta terça-feira, 7 de abril, Dia Mundial da Saúde, será realizada a 3ª Marcha em Defesa do SUS, organizada pelo Movimento Popular de Saúde com apoio de movimentos sociais.
O ato está marcado para as 16h, no Largo da Catedral Metropolitana de Campinas, e tem como lema "O SUS Campinas precisa de nós". Segundo os organizadores, a manifestação busca denunciar a situação da saúde pública no município e reforçar a importância do SUS como política pública essencial.
A expectativa é reunir usuários, profissionais da saúde e representantes da sociedade civil em um ato que retoma, nas ruas, o debate sobre o papel do sistema público e a necessidade de sua valorização. Para os organizadores, a mobilização também busca pressionar por melhorias no atendimento e chamar a atenção para os desafios enfrentados pela rede pública.
Campinas carrega um histórico de participação ativa na construção de propostas que influenciaram o SUS e, agora, volta a mobilizar a população em defesa dO sistema .