Por: Redação

Campinas tem menor nº de beneficiários do Bolsa Família em seis anos

Criança segura cartão do Bolsa Família, principal programa de renda do país | Foto: Lyon Santos / MDS

Campinas atingiu, em março de 2026, o menor número de famílias atendidas pelo Bolsa Família em pelo menos seis anos, ou seja, pelo menos desde 2020. Ao todo, 51.235 lares receberam o benefício, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).

O número representa uma queda de 12,4% em relação ao mesmo mês de 2025, quando 58.518 famílias eram atendidas na cidade. Na comparação com março de 2023, período em que o programa foi retomado com o nome Bolsa Família após a fase do Auxílio Brasil, a redução chega a 22,3%.

A retração consolida uma tendência de queda contínua após o pico registrado no pós-pandemia. Naquele momento, o programa alcançou 65.953 famílias em Campinas, o maior patamar da série recente.

Desde então, os dados mostram um recuo gradual:

03/2023: 65.953 famílias
03/2024: 61.012
03/2025: 58.518
03/2026: 51.235

Mesmo com a redução, o alcance do programa segue expressivo. Em março deste ano, o Bolsa Família atendeu 134.219 pessoas na cidade, o equivalente a 11,29% da população estimada em 1.187.974 habitantes pelo IBGE.

O volume de recursos também permanece elevado. Foram R$ 34,5 milhões transferidos ao município no período, com valor médio de R$ 682,60 por família.

Entre recuperação econômica e revisão de cadastros

A queda no número de beneficiários ocorre em um contexto que combina fatores econômicos e administrativos. De um lado, o governo federal aponta que parte das famílias deixou de atender aos critérios do programa após melhora na renda e inserção no mercado de trabalho.

De outro, houve um processo de revisão e qualificação das informações do Cadastro Único, base que reúne os dados das famílias de baixa renda no país. Segundo o MDS, esse movimento contribuiu para tornar o sistema mais preciso e reduzir pagamentos considerados indevidos.

O desenho do programa também prevê a chamada “porta de saída”, em que o benefício é interrompido quando a renda familiar ultrapassa o limite estabelecido.

Dependência ainda é significativa

Apesar da tendência de queda, os números indicam que a dependência do programa ainda é relevante em Campinas. Hoje, mais de 1 em cada 9 moradores está diretamente vinculado ao Bolsa Família.

Criado em 2004, o programa de transferência de renda é considerado uma das principais políticas públicas de combate à pobreza no país, com impacto direto no acesso à alimentação, educação e saúde.

A redução recente, portanto, pode refletir tanto uma melhora nas condições de vida de parte da população quanto os efeitos de um controle mais rigoroso sobre os cadastros, dois movimentos que, combinados, ajudam a redesenhar o alcance do programa na cidade.

Bolsa Família salvou mais de 700 mil vidas e evitou 8 milhões de internações

(Agência Fiocruz de Notícias)

Um estudo publicado em maio de 2025 na revista The Lancet Public Health revela que o Programa Bolsa Família (PBF), um dos maiores programas de transferência de renda com condicionalidades do mundo, teve impacto expressivo na saúde da população brasileira ao longo de seus 20 anos de existência. Conduzida por pesquisadores da Fiocruz, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de Barcelona (UB), a análise mostra que, entre 2004, quando o PBF foi criado, e 2019, o programa evitou mais de 700 mil mortes e 8 milhões de internações hospitalares, com efeitos especialmente significativos entre crianças menores de cinco anos e idosos com mais de 70 anos.

A pesquisa é considerada a primeira avaliação abrangente de impacto do PBF sobre mortalidade por todas as causas em todas as idades. Os pesquisadores Rômulo Paes de Sousa, do Centro de Estudos Estratégicos (CEE/Fiocruz), Daniella Cavalcanti (UFBA) e Davide Rasella (UC) e colegas examinaram dados de 3.671 municípios, definidos pela qualidade adequada de registro civil e das estatísticas, representando mais de 87% da população brasileira.

No Brasil, avaliações anteriores também demonstraram que o PBF alcançou impactos positivos, conseguindo reduzir os riscos de doenças infantis e maternas, bem como a mortalidade por causas específicas, como HIV/Aids e tuberculose, especialmente em populações mais vulneráveis. No entanto, até onde se sabe, nenhum estudo avaliou de forma abrangente a associação entre PBF e mortalidade e hospitalização, geral e estratificada por idade, nas duas décadas de implementação. Estudos anteriores avaliaram os efeitos do PBF na mortalidade geral em períodos mais curtos e em subpopulações específicas.

“Nosso estudo mostra que políticas de transferência de renda bem estruturadas podem salvar vidas. O Bolsa Família não apenas combate a pobreza, tendo também efeitos diretos na saúde da população brasileira”, observa Daniella Cavalcanti, à frente da pesquisa.

Os dados evidenciaram que os efeitos são mais robustos quando há alta cobertura (percentual de famílias elegíveis atendidas) e alta adequação (valor médio transferido por família). Nessas condições, a mortalidade infantil caiu 33% e as internações de idosos acima de 70 anos foram reduzidas pela metade.

“Durante um período de múltiplas crises – econômicas, sanitárias e climáticas – reforçar programas como o Bolsa Família pode ser decisivo para proteger as populações mais vulneráveis, especialmente em países de baixa e média renda”, afirma Davide Rasella.

Os autores combinaram modelos retrospectivos com modelos preditivos, projetando também os efeitos de uma expansão do PBF para até 2030. As projeções indicam que, se o Bolsa Família for expandido em cobertura e valor dos benefícios, outras 683 mil mortes e mais de 8 milhões de internações poderão ser evitadas, consolidando seu papel como ferramenta fundamental de proteção social e saúde pública.

“Estamos em um momento histórico no mundo, de forte disputa entre dois projetos fortes, um focado na restrição de direitos, inclusive democráticos, e redução do Estado, e outro, mais democrático, com aspectos sociais fortes, que aposta na manutenção do Estado como agente responsável pela redistribuição de recursos e proteção daqueles que, por qualquer razão, estão sem condição de prover seu sustento”, analisa Rômulo Paes, que participou do nascimento do Bolsa Família, responsável pelo desenho e implementação do sistema de monitoramento e avaliação do Programa no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

“O estudo é fundamental para esse debate. Apostar no bem-estar não é um mau negócio, ao contrário, traz vantagens gerais, tanto do ponto de vista social, quanto do ponto de vista econômico”, considera Paes, que ainda lembra do aspecto ambiental a merecer cada vez mais atenção. “Esse é um dos futuros da agenda social no Brasil, uma vez que um dos efeitos das alterações climáticas recaem sobre os mais pobres e mais vulnerabilizados. É uma agenda de política social e de pesquisa também”.

Aliança Global contra a Fome e a Pobreza

Conforme destacam os autores, o estudo contribui diretamente para os objetivos da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada pelo Brasil durante sua presidência do G20, em 2024, que busca fortalecer a cooperação internacional no combate à fome, à pobreza e às desigualdades. Ao evidenciar os impactos positivos do Bolsa Família na saúde da população, a pesquisa reforça a importância de políticas públicas integradas que combinem proteção social com acesso a serviços essenciais.

Além disso, os resultados se alinham ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 da ONU, que propõe "assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades" até 2030, destacando o papel estratégico de programas de transferência de renda na promoção da saúde e da equidade em nível global.

“A experiência brasileira mostra ao mundo que combater a fome e a pobreza com políticas públicas baseadas em evidências também é investir em saúde e desenvolvimento humano sustentável”, avalia Daniella.

Programa Bolsa Família

Em 2024, o Brasil celebrou os 20 anos do PBF, que abrange 50 milhões de brasileiros, um dos maiores e mais consolidados programas de transferência de renda com condicionalidades do mundo. Esses programas destinam recursos financeiros a famílias em situação de pobreza, desde que cumpram determinados compromissos nas áreas de saúde e educação. O objetivo é reduzir a pobreza no curto prazo e, ao mesmo tempo, romper o ciclo intergeracional da pobreza.

Atualmente, o PBF abrange mais de 20 milhões de famílias (55,1 milhões de pessoas), transferindo uma média de US$ 139 para cada domicílio mensalmente, com orçamento geral de aproximadamente US$ 34,5 bilhões em 2023.