Por: Moara Semeghini - Campinas

Casos de violência na saúde preocupam, diz Sindicato dos Trabalhadores da Saúde

Casos de agressão a profissionais motivaram paralisação no CS Centro, em Campinas | Foto: Wavebreak Media LTD/Freepik

A paralisação dos trabalhadores do Centro de Saúde (CS) Centro, em Campinas, na última segunda-feira (30), após episódios de violência contra profissionais dentro da unidade, trouxe à tona o debate sobre agressões em serviços de saúde e as condições de atendimento enfrentadas no dia a dia.

Casos recentes registrados no município, incluindo agressões físicas, ameaças e situações de tensão com usuários, têm sido relatados por trabalhadores e entidades da área, que apontam fatores como sobrecarga, demora no atendimento e dificuldades estruturais como elementos que podem agravar esse cenário.

Dados de uma pesquisa divulgada pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) mostram a dimensão do problema: oito em cada dez profissionais de saúde afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência no trabalho. Entre os casos, 90% envolvem agressões verbais, 79% psicológicas e 21% físicas.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde de Campinas e Região (SinSaúde), Edison Laércio de Oliveira, a violência contra profissionais tem se intensificado e já faz parte da rotina nas unidades. “A gente vê agressões físicas, psicológicas e ameaças crescendo. Isso não é pontual, é recorrente”, afirma.

O cenário se repete em nível nacional. Levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPE-DF) aponta que apenas 15,2% dos profissionais que sofreram violência física registraram denúncia formal, o que indica subnotificação e dificuldade de enfrentamento do problema.

Para o presidente do SinSaúde, a violência tem se tornado parte da rotina dos profissionais. “Não haveria espaço para relatar todas as agressões morais e psicológicas que, neste momento, atingem milhares de trabalhadores e crescem de forma exponencial”, afirma.

Segundo ele, embora a insatisfação da população esteja ligada a falhas no sistema de saúde, os profissionais acabam sendo o principal alvo. “A revolta é compreensível em um sistema falho, mas jamais pode recair sobre quem está na linha de frente”, diz.

Casos concretos ajudam a ilustrar o cenário. De acordo com o sindicato, há registros de agressões físicas com sequelas permanentes e até situações em que profissionais foram feitos reféns por pacientes insatisfeitos com a falta de medicamentos ou demora no atendimento.

A Polícia Civil informou que investiga todos os casos de violência registrados, incluindo ocorrências em unidades de saúde, com o objetivo de identificar os responsáveis. A corporação destacou que, em situações de menor potencial ofensivo, a continuidade da investigação depende da representação da vítima e reforçou a importância do registro do boletim de ocorrência, inclusive pela Delegacia Eletrônica.

Paralisação expõe problemas no CS Centro

No caso mais recente, a paralisação do CS Centro foi motivada por uma sequência de episódios de violência dentro da unidade, além de um cenário já marcado por superlotação e falta de profissionais.

Segundo os trabalhadores, quatro profissionais foram agredidas na última semana, em meio a situações recorrentes de ameaças e insegurança. A unidade também opera acima da capacidade desde o fechamento da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Centro, em 2016, quando parte da demanda passou a ser absorvida pelo serviço básico.

Atualmente, o centro de saúde enfrenta déficit de médicos da família, agentes comunitários, técnicos de enfermagem e de farmácia, além da falta de reposição de especialidades como ginecologia e psiquiatria. De acordo com os servidores, esse cenário tem provocado demora no atendimento, dificuldade para agendamento de consultas e aumento da tensão dentro da unidade.

Conselho aponta falhas estruturais

Para o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Lúcio Rodrigues, a situação vai além de episódios isolados e reflete dificuldades estruturais da rede.

“Hoje nós temos muita dificuldade em garantir assistência aos usuários do SUS. O que aconteceu no Centro não é um caso isolado, é resultado de uma situação que já vinha se agravando”, afirmou.

Segundo ele, durante reunião realizada nesta semana com o secretário municipal de Saúde, não foram apresentadas propostas concretas para enfrentar os principais problemas. “Existe disposição para diálogo, mas ainda sem definição de medidas efetivas”, disse.

Entre os pontos levantados pelo Conselho está a necessidade de ampliar as equipes do Programa de Saúde da Família (PSF). Campinas conta atualmente com cerca de 246 equipes, enquanto a estimativa é de que seriam necessárias ao menos 300 para atender à demanda.

Rodrigues também critica o critério adotado para distribuição das equipes, que considera uma média de quatro mil pessoas por grupo, sem diferenciação por nível de vulnerabilidade social. “Áreas mais vulneráveis deveriam ter menos pessoas por equipe, justamente por dependerem mais do SUS”, afirmou.

Terceirização e ambiente de tensão

Outro ponto destacado é a terceirização de serviços nas unidades, especialmente nas recepções. Segundo o conselheiro, a falta de preparo e a alta rotatividade desses trabalhadores contribuem para conflitos no atendimento.

“Esse profissional acaba sendo o primeiro a comunicar a falta de vagas ou de médicos e vira o ‘para-choque’ dos problemas. Isso gera irritação e pode evoluir para situações de violência”, disse.

Para ele, o atendimento inicial deveria ser realizado por servidores concursados, com formação adequada e maior integração com as equipes de saúde.

Prefeitura

Procurada, a Prefeitura de Campinas informou que atua em diferentes frentes para prevenir e lidar com casos de violência contra profissionais da saúde.

Segundo a administração, há programas de formação para gestores com foco em direitos humanos, combate ao assédio e melhoria do diálogo com a população, além de ações de apoio psicossocial aos servidores, como o programa “Cuidando dos Cuidadores”.

A Prefeitura também destacou que investe na ampliação de equipes e na redução do tempo de espera como forma de diminuir conflitos nas unidades. Em casos de agressão, os profissionais são orientados a registrar ocorrência para que os episódios sejam investigados.

A administração acrescentou que promove ações de humanização, capacitação e acompanhamento nas unidades de saúde, incluindo iniciativas voltadas à saúde mental de trabalhadores, pacientes e familiares.