Por: Moara Semeghini - Campinas

Sanasa tem rombo de R$ 1,36 bilhão no curto prazo e queda de 64% no lucro; empresa nega descumprimento de contratos

Estações de Tratamento da Sanasa, ETAs 3 e 4, em Sousas | Foto: Adriano Rosa/Prefeitura de Campinas

A Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), de Campinas, registrou queda de 64,5% no lucro em 2025 e encerrou o ano com deterioração nos indicadores de curto prazo, segundo demonstrações contábeis divulgadas no Diário Oficial do Município nesta terça-feira (31).

O lucro líquido caiu de R$ 188,6 milhões em 2024 para R$ 66,8 milhões em 2025. Apesar de ainda registrar resultado positivo, a situação financeira no curto prazo piorou: o capital circulante líquido ficou negativo em R$ 1,36 bilhão, no ano anterior, o indicador era positivo.

Na prática, isso significa que a empresa passou a ter mais obrigações a pagar no período de até um ano do que recursos disponíveis para quitá-las, o que pressiona a liquidez e a capacidade financeira.

O balanço também aponta o descumprimento de indicadores financeiros previstos em contratos de empréstimos, os chamados covenants, firmados com instituições como Santander, Banco do Brasil, International Finance Corporation (IFC) e Corporación Andina de Fomento (CAF).

De acordo com as demonstrações, o não atingimento dessas metas pode permitir o vencimento antecipado de dívidas e gerar efeitos em cadeia (cross default), alcançando inclusive contratos que não apresentaram descumprimento direto.

Diante desse cenário, parte dos passivos foi reclassificada para o curto prazo, o que contribuiu para o aumento do rombo no capital de giro.

Queda no lucro e pressão financeira

Além do agravamento da situação de liquidez, a Sanasa também apresentou queda expressiva no lucro, superior a 60% em relação ao ano anterior.

Embora a companhia continue lucrativa, a combinação de redução no resultado e pressão sobre obrigações de curto prazo é considerada, em análise financeira, um ponto de atenção relevante.

O que diz a Sanasa

Em nota, a Sanasa afirmou que não houve descumprimento de contratos com bancos e que os covenants são indicadores baseados em projeções, sujeitas a variações.

“A empresa também esclarece que não descumpriu nenhum contrato com bancos. Covenants são indicadores contratuais estabelecidos com base em previsão sobre o comportamento da economia, das receitas e despesas, portanto, sujeitos a variações como qualquer estimativa”, informou.

A companhia acrescentou que os próprios contratos já preveem esse tipo de oscilação.

Sobre o nível de endividamento, a Sanasa argumenta que o valor absoluto da dívida não deve ser analisado isoladamente, mas em relação à capacidade de geração de receita.

Investimentos e cenário econômico

A empresa também atribui parte do desempenho ao cenário macroeconômico, especialmente à taxa básica de juros. Segundo a Sanasa, a manutenção da taxa Selic em patamares elevados, entre 14% e 15%, aumentou o custo de financiamentos e pressionou as despesas.

Apesar disso, a companhia destacou que manteve investimentos elevados. Nos últimos cinco anos, foram aplicados R$ 1,35 bilhão em obras de saneamento, sendo R$ 334 milhões apenas em 2025, o maior volume da história da empresa.

Entre os avanços apontados estão o aumento da capacidade de reservação de água, a redução de perdas na distribuição e a universalização do saneamento em Campinas antes do prazo previsto no marco legal do setor.

Continuidade das operações

Mesmo com os indicadores pressionados, a administração afirma que a empresa mantém capacidade de continuar operando normalmente.

A Sanasa informou ainda que está em tratativas com credores para reavaliar condições contratuais, mas que, até a data de divulgação das demonstrações, não havia formalização de dispensas (waivers).

A companhia também destacou que Campinas recebeu recentemente reconhecimento nacional na área de saneamento, atribuindo os resultados aos investimentos realizados nos últimos anos.

 

Macaque in the trees
Estações de Tratamento da Sanasa, ETAs 3 e 4, em Sousas | Foto: Adriano Rosa/Prefeitura de Campinas

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Estações de Tratamento da Sanasa, ETAs 3 e 4, em Sousas | Foto: Adriano Rosa/Prefeitura de Campinas