Por: Moara Semeghini - Campinas

Universidades públicas criam protocolos para uso de inteligência artificial

Unicamp, Unesp e USP criam iniciativas para orientar uso de inteligência artificial | Foto: Freepix

As três principais universidades públicas paulistas, Unicamp, Unesp e USP, vêm estruturando iniciativas para orientar o uso da inteligência artificial no ambiente acadêmico. A criação de diretrizes, centros de referência e guias busca estabelecer parâmetros éticos e pedagógicos para o uso dessas ferramentas em atividades de ensino, pesquisa e gestão.

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o debate já mobiliza diferentes áreas da instituição e deve avançar em breve para uma regulamentação mais ampla. Segundo o professor Leonardo Tomazeli Duarte, coordenador do recém-criado Centro de Referência em Tecnologias de Inteligência Artificial da universidade e docente da Faculdade de Ciências Aplicadas, o tema vem sendo discutido em diferentes instâncias da instituição.

Na Unicamp, a graduação em bacharelado em Inteligência Artificial e Ciências de Dados deve ser aprovada pelo Conselho Universitário (Consu) ainda no fim de março. 

“Esse assunto já vem permeando a universidade há algum tempo. Existem vários eventos, fóruns e orientações específicas em diferentes setores. A própria graduação, por exemplo, já discutiu com alunos e professores questões relacionadas a plágio e aos usos indevidos da inteligência artificial”, afirma.

De acordo com Duarte, esse movimento tem ocorrido de forma descentralizada, com unidades acadêmicas, áreas administrativas e órgãos institucionais contribuindo para a construção das diretrizes. Agora, a universidade deve dar um passo importante na consolidação dessas discussões.

Neste mês, o Conselho Universitário (Consu) deve apreciar a primeira deliberação geral da Unicamp sobre o uso de inteligência artificial generativa. O documento deve estabelecer princípios e diretrizes para orientar a comunidade acadêmica.

Entre os pontos centrais da proposta está a definição de que a inteligência artificial deve ser tratada como uma ferramenta auxiliar, sempre sob supervisão humana. “A IA é uma ferramenta e, como tal, precisa ter sempre um ser humano responsável pelas decisões e pelos conteúdos produzidos com o seu apoio”, explica Duarte.

Outro aspecto destacado nas discussões envolve os riscos de vieses presentes nos sistemas de inteligência artificial. Segundo o professor, esses sistemas podem deixar de considerar temas relevantes ou reproduzir limitações presentes nos dados utilizados para seu treinamento.

“Em um estudo, por exemplo, a IA pode simplesmente não considerar determinados assuntos importantes. Isso pode criar uma espécie de ‘sombra’ em torno de certos temas e dar a impressão de que eles não existem”, afirma.

A deliberação em discussão no Consu deverá estabelecer princípios gerais para o uso da tecnologia na universidade e abrir espaço para regulamentações mais específicas nas áreas de ensino, pesquisa, extensão e também nos processos administrativos.

Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), a instituição também vem avançando na organização de diretrizes. No ano passado, a universidade publicou uma normativa geral para o uso de ferramentas de inteligência artificial no ambiente acadêmico e regras específicas para a pós-graduação. Mais recentemente, foi lançado o Guia para a Utilização de Inteligência Artificial na Graduação, documento voltado a orientar estudantes, docentes e servidores.

O guia adota o princípio da transparência como base e organiza as recomendações de forma didática, indicando situações em que o uso da tecnologia é permitido, proibido ou deve ser avaliado com cautela. Entre as orientações, está a necessidade de declarar quando ferramentas de IA forem utilizadas em trabalhos acadêmicos, informando a ferramenta empregada, a versão do sistema, a data de acesso e os comandos utilizados.

A Universidade de São Paulo (USP) também tem ampliado as iniciativas relacionadas ao tema. A instituição está implementando um Escritório de Transformação Digital e Inteligência Artificial, ligado ao Gabinete do Reitor, com o objetivo de coordenar projetos, formar estudantes e docentes e reunir materiais de referência sobre o uso dessas tecnologias.

Segundo o reitor da universidade, Aluisio Augusto Cotrim Segurado, em matéria publicada pelo Jornal da USP no início deste mês, o avanço das tecnologias digitais vem transformando diferentes setores da sociedade e exige novas abordagens no ambiente universitário. A expectativa é que a iniciativa ajude a apoiar atividades de ensino, pesquisa e gestão acadêmica, além de promover debates sobre as diretrizes éticas para o uso da inteligência artificial.

Paralelamente, a USP também participa de uma cooperação com o Ministério da Justiça e Segurança Pública para a elaboração de um guia nacional de boas práticas para o uso responsável da inteligência artificial no setor público.

O conjunto dessas iniciativas reflete um movimento mais amplo das universidades brasileiras diante da rápida expansão das tecnologias de inteligência artificial, que já impactam rotinas de ensino, produção científica e atividades administrativas. Para especialistas, o desafio das instituições de ensino superior é equilibrar o potencial de inovação dessas ferramentas com a preservação do rigor acadêmico e da integridade científica.