O episódio de agressão e vandalismo registrado esta semana, no primeiro dia de aula de calouros e veteranos no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ultrapassa os limites de um confronto isolado dentro do campus. Para o cientista político Milton Lahuerta, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, o que ocorreu faz parte de um movimento político mais amplo, articulado e recorrente, que ganha força em ano eleitoral.
“Sobre o episódio em detalhes, eu vi algumas imagens, não somente as que foram apresentadas pelo pessoal da própria Unicamp, mas as que foram apresentadas pelos jovens que foram lá fazer essa barbaridade, a provocação. O que eu diria? A primeira questão: não é novidade isso que ocorreu”, afirma.
Segundo ele, há uma estratégia consolidada de deslegitimação das universidades públicas. “Existem vários movimentos, o MBL é um deles, há um tempo atrás a Escola Sem Partido era outro, que vêm insistindo nesta tecla de que a universidade pública é um espaço de perdição, de destruição, de pichação, em que não há respeito por quem não pensa à esquerda. Esse é um discurso que vem sendo plantado já há algum tempo e vem encontrando bastante repercussão, o que deve ser elemento de preocupação para nós.”
Para Lahuerta, trata-se de uma narrativa que associa o ambiente universitário a uma suposta degradação moral e ideológica. “É um discurso recorrente que remete à questão dos valores, à suposta perdição que haveria na universidade, à defesa da família, pauta tradicional do conservadorismo. Hoje essa pauta vem sendo explorada pela ultradireita. É disso que se trata”, disse.
Ele menciona episódios recentes que, em sua avaliação, reforçam essa construção. “Há um movimento articulado com esta finalidade de desmoralizar a universidade. Basta lembrar aquele episódio do Túlio Maravilha, fazendo um discurso contra a universidade pública, dizendo que as federais são uma porcaria, sendo que a filha havia feito vestibular para uma universidade estadual e outra federal. É um discurso recorrente.”
Para o professor, a ação no IFCH teve caráter deliberadamente provocativo. “São provocações. Por mais que a gente possa considerar que em algumas paredes haja pichações exageradas, não é assim que se resolve, simplesmente violando grafites feitos pelos jovens da universidade, até porque eles não são da universidade. Foram lá para criar tumulto, criar provocação.”
Ele vai além e insere o episódio em uma crise mais profunda do papel social da universidade. “A universidade vem sofrendo uma crise de identidade no mundo inteiro. Aquilo que durante um século foi fundamental — formar não apenas profissionais qualificados, mas cidadãos e cidadãs responsáveis, está sendo posto em xeque pela hiper aceleração e pela hiper comunicação online.”
Segundo Lahuerta, o ambiente digital alterou a relação com o conhecimento e com a autoridade intelectual. “Hoje, qualquer imbecil, como dizia Humberto Eco, o idiota da aldeia, acha que pode emitir opinião se comparando com um Prêmio Nobel. Esse é um problema real que atinge os jovens. Muitos não veem mais a universidade como algo necessário.”
Ele aponta ainda a influência de uma lógica utilitarista e neoliberal. “Essa recusa da universidade vem da imposição da lógica custo-benefício em todas as dimensões da vida. A universidade perdeu legitimidade social. As pessoas não a veem mais como um lugar interessante para formar seus filhos.”
Na avaliação do professor, quando essa crise estrutural se combina com o avanço da extrema direita em escala global, e com a proximidade do calendário eleitoral, episódios como o ocorrido na Unicamp tornam-se mais frequentes.
“Quando juntamos essa questão estrutural com o avanço da ultradireita no mundo, o discurso que aponta a inutilidade da universidade é complementado por barbarismos que dizem que na universidade todo mundo é drogado, homossexual, que as mulheres são prostitutas. Essa é a lógica generalizada.”
Para ele, há também uma dificuldade interna de enfrentamento. “Continuamos agindo como se fosse possível ensinar do mesmo modo que ensinávamos. Mas os jovens estão permeados pela hiper comunicação, não têm paciência para textos longos, aulas longas. Não estão sendo preparados para debater, para ouvir o outro. Pelo contrário, estão sendo estimulados à intransigência.”
E conclui: “Tudo isso está na pauta agora e acaba aparecendo de maneira caricatural nesse tipo de episódio que aconteceu na Unicamp.”
Reações no campus
No dia seguinte ao episódio, o clima foi de solidariedade e articulação institucional, segundo o diretor do IFCH, Sávio Cavalcante. “Recebemos muitas manifestações de diretores e unidades da Unicamp. Todos entenderam que não foi um ataque ao IFCH, foi um ataque à Unicamp como um todo. Está sendo articulada uma nota conjunta dos diretores manifestando solidariedade.”
O diretor afirmou que a prioridade foi o acolhimento dos estudantes agredidos. “Fomos acompanhar o registro do boletim de ocorrência, saber como estavam. Eles estavam assustados, mas se recuperando.” Houve reforço de vigilância no campus nos dias seguintes.
Cavalcante também relatou manifestações de apoio de vereadores de Campinas e contato direto com calouros. “Alguns não sabiam exatamente o que tinha acontecido. Pudemos tranquilizá-los e apresentar nosso protocolo para evitar confrontos.”
Segundo ele, há preocupação com a possibilidade de novos episódios em razão do período eleitoral, mas também a percepção de unidade da comunidade acadêmica. “A comunidade está bastante unida para defender a universidade da forma mais adequada possível.”
Nota oficial do IFCH
Em nota divulgada nesta terça-feira (25), a direção do IFCH classificou o episódio como “invasão” e “escalada inaceitável”. O instituto afirmou que o grupo não possuía vínculo com a universidade e que os atos tiveram caráter premeditado, citando vídeos publicados pelos próprios envolvidos nas redes sociais.
O texto destaca que a comunidade tentou aplicar o protocolo de autodefesa construído coletivamente desde 2025, mas que o conflito evoluiu para agressões físicas antes da chegada da vigilância. A direção informou que registrou boletim de ocorrência e que está oferecendo suporte aos estudantes.
A nota reafirma o compromisso com a democracia, a pluralidade e a autonomia universitária, e afirma que a instituição não se submeterá a tentativas de coerção ou intimidação.
Para Milton Lahuerta, o desafio vai além da resposta institucional imediata. “O que está em jogo não é apenas um episódio de vandalismo. É a disputa sobre o sentido da universidade e sobre o tipo de sociedade que queremos construir.”
E, em um cenário de polarização e campanha eleitoral, ele alerta: “Se não soubermos enfrentar essa lógica de deslegitimação com argumentos e diálogo, ela tende a se repetir, e a se intensificar.”
Sobre Milton Lahuerta
Professor da Unesp desde 1984, Lahuerta é mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (1981-1991) e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (1994-1999).