O cientista político José Álvaro Moisés, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), morreu na última sexta-feira (13), aos 81 anos, após um afogamento na praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte paulista.
Nascido em Campinas, Moisés construiu uma trajetória acadêmica reconhecida nacional e internacionalmente, com pesquisas voltadas à democracia, cultura política e instituições públicas. A identidade foi confirmada na manhã de sábado (14) pelo Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) e pela Polícia Civil. O boletim de ocorrência registra o caso como morte suspeita e morte acidental.
Segundo o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), os guarda-vidas foram acionados por banhistas por volta das 17h40, após um homem de 81 anos ser encontrado inconsciente na faixa de areia. Quatro guarda-vidas e dois temporários participaram do atendimento, com apoio de viaturas de resgate e equipe médica. As manobras de reanimação cardiopulmonar foram iniciadas ainda na praia, mas o óbito foi constatado no local. O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Caraguatatuba para exames de necropsia.
Em relato ao portal g1, a jornalista Renée Amazonas Castelo Branco, amiga do professor, afirmou que estava com ele e outros amigos na praia para ver o pôr do sol quando perdeu Moisés de vista por alguns instantes. Pouco depois, foi informada sobre o afogamento. A informação também consta no boletim de ocorrência.
Ainda de acordo com o registro policial, amigos buscaram informações em uma funerária da cidade, onde confirmaram a identidade da vítima. O velório foi realizado na manhã deste domingo (15), das 8h às 11h, no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Após a cerimônia, o corpo foi cremado.
Trajetória acadêmica e atuação pública
Campineiro, Moisés estudou no tradicional Colégio Culto à Ciência, onde iniciou sua trajetória de engajamento político ainda no movimento estudantil secundarista. O professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Sérgio Antonio da Silva Leite, relembrou a convivência com Moisés na juventude. “Moisés era de Campinas. Fomos colegas no Culto à Ciência e militamos no movimento estudantil secundarista. Atuamos na UCES, onde ele foi presidente e eu vice. Sua morte representa uma perda irreparável”, afirmou.
Professor titular da USP, Moisés foi uma das principais referências nos estudos sobre democracia e cultura política no Brasil. Participou do International Social Sciences Council, vinculado à UNESCO, dirigiu o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas da universidade, editou o blog Qualidade da Democracia e coordenou o projeto Corrupteca.
Foi também um dos fundadores dos estudos de cultura política no país e, desde 2016, atuava como colunista da Rádio USP, no quadro A qualidade da democracia, com análises quinzenais sobre a conjuntura nacional.
Na década de 1980, participou da fundação do PT e exerceu a função de secretário do partido. Contribuiu na elaboração de documentos que apresentavam as bases programáticas da legenda e participou dos debates em torno da Assembleia Nacional Constituinte, no processo de redemocratização do país.
Ao longo da carreira, publicou obras voltadas à análise das crises democráticas, da confiança nas instituições e do funcionamento do sistema político brasileiro.
Notas de pesar
A Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) lamentou a morte e destacou a relevância de Moisés para a consolidação da área no país:
“Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores”, destacou a ABCP, em nota.
O Partido dos Trabalhadores divulgou a seguinte nota:
"O Partido dos Trabalhadores lamenta profundamente o falecimento do cientista político José Álvaro Moisés, aos 81 anos. Professor da Universidade de São Paulo (USP) e fundador do PT em 1980, José Álvaro Moisés teve papel relevante no debate público brasileiro e na consolidação da ciência política como campo de reflexão crítica sobre a democracia, as instituições e a participação popular. Sua trajetória intelectual esteve marcada pelo compromisso com o estudo das instituições democráticas e pelo acompanhamento atento da vida política nacional.
Moisés sempre se colocou no campo do debate democrático, contribuindo para o pluralismo de ideias que fortalece a sociedade brasileira. Neste momento de pesar, o PT se solidariza com familiares, amigos, colegas da Universidade de São Paulo e com toda a comunidade acadêmica".
A USP também divulgou nota oficial, por meio do Departamento de Ciência Política da FFLCH:
É com imensa tristeza que recebemos a notícia do falecimento do professor José Álvaro Moisés, que tão enorme legado deixa ao Departamento de Ciência Política da USP, à FFLCH, e à ciência política brasileira em geral.
Moisés, como lhe conhecíamos, mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada, e com frequência recebíamos suas notícias sobre a organização de seminários, e suas reflexões sobre o futuro da democracia brasileira, direitos humanos e cultura política, áreas nas quais dirigia fóruns como o de Formulação dos Direitos e o Fórum da Democracia. Ele foi fundamental na organização do DCP-USP nos anos oitenta, da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e da International Political Science Association (IPSA).
Moisés se formou em 1970 nas primeiras turmas do Curso de Graduação em Ciências Sociais pela USP, e depois realizou seu mestrado em Política e Governo pela Universidade de Essex (1972), obtendo seu doutorado em Ciência Política pela USP (1978), sob a orientação do professor Francisco Weffort.
Moisés era um incansável construtor de instituições: foi fundador do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, e foi também o primeiro coordenador do Curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH/USP (2004/2006). E como professor Sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenava, com grande dinamismo, o Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia. Moisés também foi Presidente do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea CEDEC (1987-1991), e também Secretário de Apoio à Cultura (1995-1998) e Secretário de Audiovisual (1999-2002) do Ministério da Cultura
Um dos fundadores dos Estudos da Cultura Política no país, o Moisés era um apaixonado da democracia brasileira a qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas legando obras como “Crises da Democracia: o Papel do Congresso, dos deputados e dos partidos”, “Bulding democracies. Challenges, crises and response to rule of law, Access to justice and political representation; “A desconfiança política e os seus Impactos na qualidade da democracia; “Democracia e desconfiança. Por que os cidadãos desconfiam das Instituições públicas.”
Moisés deixa um vácuo pessoal, intelectual e institucional difícil de preencher. Toda nossa solidariedade à família, amigos e colegas.
Rafael Duarte Villa
Chefe do Departamento de Ciência Política-USP