O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) determinou que a Prefeitura de Campinas apresente um novo projeto para o entorno do Centro de Convivência e Cultura “Carlos Gomes”, incluindo alternativas ao atual gradil de cercamento.
Segundo o órgão, a administração municipal foi oficiada em 12 de novembro de 2025 e tem prazo de 90 dias para encaminhar a proposta. O conselho solicitou que o estudo contemple a fluidez do bem protegido, soluções de paisagismo e uma nova abordagem para o fechamento do espaço, de modo a preservar as características arquitetônicas e históricas do conjunto. O Condephaat também foi notificado oficialmente no dia 4 de fevereiro deste ano e deve se manifestar no processo até 13 de fevereiro.
A discussão sobre o cercamento também chegou à Justiça. O juiz Mauro Iuji Fukumoto, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Campinas, determinou que o conselho apresente esclarecimentos técnicos sobre a regularidade das grades e indique quais normas de preservação se aplicam ao caso. A manifestação deve subsidiar a análise judicial sobre a compatibilidade da intervenção com o tombamento do complexo cultural.
Segurança e conservação
O tema opõe diferentes visões sobre preservação e uso do espaço público. Para o professor de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas João Verde, conselheiro da Associação Regional de Escritórios de Arquitetura (Área) e integrante do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), o fechamento é justificável diante do histórico recente do local.
Ele lembra que o projeto original do arquiteto Fábio Penteado previa um espaço aberto e integrado à cidade, mas afirma que a realidade atual exige medidas de proteção.
“O ideal seria manter o Centro de Convivência aberto, como foi concebido, mas os tempos mudaram. O fechamento praticamente não interfere na arquitetura e ajuda a preservar o edifício”, afirma.
Segundo o professor, antes da reforma o complexo enfrentou anos de abandono, com episódios de vandalismo, pichações e até fogueiras nas arquibancadas, que comprometeram estruturas e a impermeabilização da cobertura. Para ele, portões e grades funcionam como barreira preventiva contra novas depredações e ajudam a resguardar o investimento público recente, superior a R$ 4 milhões.
Verde também cita furtos de monumentos históricos da cidade, como bustos e peças decorativas, para defender mecanismos de controle de acesso. “Diante desse cenário, os gradis se tornam uma forma de proteção do patrimônio”, diz.
Prefeitura defende cercamento
Em nota, a Prefeitura de Campinas informou que o cercamento integra as ações de proteção, organização e gestão do espaço e foi definido em diálogo com os órgãos de preservação.
De acordo com o município, equipes das secretarias de Cultura e Turismo e de Infraestrutura receberam técnicos do Condephaat para uma visita ao local no ano passado, quando teriam sido discutidas medidas de segurança para conservação do patrimônio. A administração afirma ainda que o modelo atual segue parâmetros acordados com os conselhos e que um aprimoramento do projeto está sendo desenvolvido em conjunto com o Condephaat e o Condepacc, com previsão de ampliação da área interna protegida, mantendo as características da estrutura já instalada.
O Executivo também destacou que o complexo possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), com protocolos de segurança e evacuação para grandes eventos. Mesmo com o fechamento, o espaço permanece aberto ao público diariamente, das 7h às 21h, sendo utilizado para caminhadas, lazer e atividades ao ar livre.
Reabertura após 14 anos
Fechado desde 2011, o Centro de Convivência Cultural teve as obras de requalificação concluídas em julho deste ano, encerrando um período de 14 anos sem uso regular de um dos principais equipamentos culturais da cidade.
O local agora passa por etapa de implantação operacional, com compra de equipamentos, contratação de serviços e realização de testes. A prefeitura prevê licitações para restaurante, bilheteria, segurança, monitoramento e mobiliário, além de eventos piloto a partir de outubro. A abertura oficial da programação está prevista para 2026.