A Associação Cornélia Vlieg, gestora dos projetos de geração de renda e de inclusão social de pacientes com transtornos mentais atendidos pela Prefeitura de Campinas (SP), mantém a mobilização para evitar o encerramento de programas fundamentais à saúde pública local.
A organização segue na busca do diálogo direto com o Executivo Municipal para garantir a continuidade das ações realizadas em parceria com o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira.
A municipalização do serviço de saúde, firmada entre o Cândido e a Prefeitura no ano passado, impactará as 300 vagas disponíveis para os pacientes, com o fechamento de oficinas e a transferência de usuários para centros de convivência da Administração Municipal, ainda não estruturados.
Além do fechamento de vagas, o plano estipula a transferência de 200 pacientes para Centros de Convivência sob gestão direta da Prefeitura. Mas, alguns ainda não têm sede própria, e outros espaços não estão funcionando na totalidade.
Elizabete Santana, presidente da Cornélia Vlieg, ressalta a importância da manutenção das estruturas. “As oficinas são fundamentais para garantir renda, inclusão social, melhora nas condições clínicas e no tratamento do paciente, além da socialização com a família e a sociedade. Também eleva a autoestima. A Associação Cornélia Vlieg tem 32 anos de prestação de serviços de acolhimento de pacientes com transtornos mentais. Somos uma referência no Brasil”, afirma a dirigente.
A preocupação central reside na escassez de oportunidades no mercado de trabalho formal para esse público e na consequente insuficiência de renda necessária para a sobrevivência básica dos assistidos.
Exemplo prático é o de Dona Ana da Silva Teixeira Filho, de 73 anos. Diagnosticada com esquizofrenia e produtora de vitrais há mais de duas décadas, utiliza os R$ 900,00 recebidos mensalmente para custear contas de água, luz e telefone.
“A falta de uma ocupação, e o fato de eu ficar com a mente vazia só fazendo os serviços de casa, me causavam as crises. Hoje, não sei mais o que é internação, durmo bem e fui dispensada das consultas psiquiátricas”, relata. Antes das oficinas, Dona Ana enfrentava internações recorrentes e crises severas de insônia; atualmente, frequenta o clínico geral apenas para a renovação de receitas.
A eficácia do modelo é corroborada por relatos de superação, como o do gráfico Anderson Rodrigues, de 52 anos. Após presenciar o assassinato da mãe e do irmão em 2001, viveu em situação de rua e vulnerabilidade devido ao alcoolismo.
“Às vezes, era para comer e outras para beber. O álcool me fazia esquecer daquela cena que eu vi e não pude fazer nada”, relembra. Através do aprendizado da fabricação de ladrilhos e da bolsa auxílio, ele conseguiu alugar um quarto e retomar a autonomia. “Foi muito importante esse tempo das oficinas para mim”, afirma Rodrigues, que segue em acompanhamento no Caps (Centro de Atenção Psicossocial)
Projeto
Abriga 13 oficinas distribuídas entre o Armazém das Oficinas e a Casa das Oficinas, atendendo pessoas de 20 a mais de 70 anos. Os usuários, encaminhados por centros de saúde e Caps ,aprendem ofícios como produção de vitrais, papéis reciclados e agricultura, permanecendo no local de três a cinco dias por semana. As bolsas variam de R$ 200,00 a R$ 1.700,00.
Mas, além do impacto direto nos pacientes, há o temor pela demissão de funcionários especializados no cuidado de sofrimentos psíquicos e dependência química.
Futuro
Questionada, a Prefeitura de Campinas informou que a Secretaria de Saúde montou equipes via concurso público conforme acordo judicial e que “os servidores já estão atuando na assistência", embora não tenha citado o número de servidores alocados, nem tampouco onde estão trabalhando ou quantas pessoas estão sendo assistidas.
Informou ainda que a municipalização está sendo feita gradativamente, conforme o acordo já mencionado, e que a saúde mental de Campinas está regulamentada de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde. Não citou também se haverá efetivamente o planejamento de vagas - como planejado.
Mas, enquanto o Poder Público é questionado pelo retrocesso, incluindo a precarização do serviço, a iniciativa privada vai na contra-mão, fomentando o auxílio.
Gente que faz
A rede de apoio inclui empresas como a Arcor, parceira há 15 anos. Milena Porrelli Drigo Azal, gerente nacional do Instituto Arcor Brasil, destaca a profundidade da aliança. “O Armazém das Oficinas desempenha um papel fundamental. Por várias vezes, levamos os oficineiros às reuniões da diretoria e de gerentes nacionais para apresentarem e desenvolverem produtos com eles. A aquisição é apenas uma parte dessa aliança e isso é pouco comparado ao impacto que essa iniciativa gera”, explica.
Milena enfatiza o valor da integração entre funcionários da empresa e os produtores das oficinas: “Conviver com essas pessoas, escutá-las apresentando seus trabalhos, suas histórias de vida, aprender com elas, isso não se mede, se vivencia. Essas pessoas são empoderadas, sentem-se valorizadas, inseridas na sociedade, recebem uma renda e são verdadeiramente autores de sua própria história”.
A gerente ainda alerta que o encerramento do projeto seria uma perda irreparável: “É um trabalho de referência internacional que transforma vidas. Será uma grande perda para todos nós se o projeto deixar de existir”.
Perfil
Fundada em 1993, a Associação Cornélia Maria Elizabeth V. Hylckama Vlieg é uma entidade sem fins lucrativos reconhecida como de utilidade pública federal, estadual e municipal, possuindo o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS).
Além das oficinas de saúde mental, mantém projetos como as Oficinas de Trabalho para Pessoas em Situação de Rua, em parceria com a Secretaria de Assistência Social, o Serviço de Orientação às Pessoas em Situação de Rua (SOS Rua) e o Centro de Convivência Inclusivo Intergeracional, focado no fortalecimento de vínculos comunitários e familiares.