Por: Raquel Valli e Moara Semeghini

Mais um feminicídio em Campinas (SP); especialistas analisam escalada do crime

Estado de SP registra o maior número de feminicídios e agressões contra mulheres da história | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Por que o número de casos de feminicídio está aumentando? Especialistas e autoridades de segurança ouvidos pelo Correio da Manhã pontuam que crime decorre de uma combinação complexa de fatores, entre os quais: pouco investimento dos governos em política de enfrentamento à violência contra a mulher, a polêmica em relação ao endurecimento das penas como fator inibidor, a ausência de uma rede de apoio multidisciplinar preventiva e o machismo estrutural, que desqualifica a mulher. Campinas (SP) registrou esta semana o primeiro caso de feminicídio da cidade em 2026. Trata-se de Rita de Cássia da Silva Coura, de 48 anos, encontrada morta dentro de casa, no Jardim Campos Elíseos, e que teria sido morta pelo companheiro, após anos de um relacionamento disfuncional.

O debate dos especialistas aponta que o Estado atua de forma tardia ao focar apenas na punição criminal, negligenciando intervenções necessárias na saúde mental dos agressores e no suporte social às famílias, enquanto as falhas no atendimento policial e na fiscalização de medidas protetivas deixam as vítimas vulneráveis no momento de maior risco após a denúncia.

O fenômeno é descrito como o ápice de um ciclo contínuo de abusos, onde a violência escala gradualmente até o desfecho fatal. Delegados e analistas destacam também que o agressor muitas vezes possui um sentimento de posse e uma mente desestruturada por fatores externos, como o desemprego e o consumo de substâncias, não reagindo ao medo de encarceramento, que em 2024 atingiu patamares de até 60 anos de prisão.

A percepção de que a lei por si só não resolve o problema é consensual, uma vez que muitos criminosos cometem o ato sem considerar as consequências jurídicas, chegando a praticar o suicídio ou aguardar a prisão no local do crime.

Para a Delegada Teresinha, primeira titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Campinas, policial referência no atendimento e no combate à violência doméstica e familiar na região, o endurecimento das penas e a criação de leis mais rigorosas não são suficientes para deter os agressores porque o crime possui raízes em estruturais, que a punição tardia não alcança.

A policial destaca que o agressor frequentemente não se enxerga como causador do conflito, atribuindo a culpa à mulher, e aponta o desemprego, o sentimento de posse, o ciúme e o uso de substâncias como gatilhos que demandam intervenção multidisciplinar de serviço social e saúde. Critica a falta de proteção real após a denúncia e menciona que o afastamento do lar por boletim de ocorrência pode gerar reações violentas em mentes comprometidas que não respeitam a lei.

“As causas do feminicídio não são trabalhadas. O Estado é o médico que chega tarde, porque toma uma intervenção drástica quando o caso não tem mais solução, ou seja, quando já tirou a vida dessa mulher, quando já é preciso trabalhar cadeia para esse sujeito, ou cemitério para aquele que se mata logo depois, e quando é preciso encontrar um lugar para esses órfãos serem colocados. A sociedade tem que entender que o trabalho da violência doméstica começa muito antes da polícia”, pontua.

“É uma política difícil de ser aplicada. Não tem fórmula. Não tem uma resposta 100% efetiva. Mas, com certeza, é preciso que no momento da denúncia uma equipe multidisciplinar acompanhe o trabalho do policial, porque não compete à polícia resolver questões sociais e as causas da violência, como desemprego, ciúmes e drogas, que são as mais comuns”, acrescenta.

Escalada

A advogada Priscilla Bittar, ativista e co-fundadora do grupo Mulheres pela Justiça, que orienta e acolhe vítimas de violência doméstica, lembra que o feminicídio não ocorre de uma hora para outra. “É o ápice das agressões que existem contra a mulher”, declara.

“Dentro do relacionamento, quando se chega a esse pico, a mulher já passou por diversas agressões. E o poder público precisa focar imediatamente nesse tema, porque o número é crescente, e a gente tem visto que só legislar, como o governo federal tem feito, punir, não tem tido resultado. É necessário que se faça campanhas de conscientização, e que a imprensa atue como vem atuando, divulgando esses crimes e mostrando, principalmente, que já há um precedente dentro daquele caso, daquela situação”, acrescenta.

A psicóloga Maria de Fátima Franco dos Santos, especialista em psicologia forense, que atua como perita e assistente técnica, especializada em violência doméstica e alienação parental, destaca ainda a questão cultural como um dos principais fatores determinantes para o problema.

Respeito 

“O machismo estrutural, presente na nossa sociedade, desqualifica as mulheres, considerando-as como seres inferiores, como subservientes, como pessoas de segunda categoria. E isso é, como eu falei, estrutural. É algo que vem já há muito tempo e precisa mudar. Recentemente, nós tivemos um presidente machista, que inclusive referiu-se a ter fraquejado quando teve uma filha mulher. Então, isso, evidentemente, reforçou o machismo que já existia. Então, a educação não-machista é crucial, porque desde cedo as crianças aprendem a se respeitarem. E é isso algo que, de fato, pode mudar uma visão, um conceito social, como é o machismo estrutural”.

Dados

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresentou uma proposta orçamentária para a Secretaria de Políticas para a Mulher em 2026 com o valor de R$ 16,5 milhões, o que representa uma queda acentuada em comparação ao ano anterior. Este montante é 54,4% menor do que a dotação de R$ 36,2 milhões aprovada pela Assembleia Legislativa (Alesp) para 2025. O cenário revela um padrão de divergência entre o Executivo e o Legislativo: para o orçamento de 2025, o governo havia sugerido inicialmente apenas R$ 9,6 milhões, mas os parlamentares elevaram a verba por meio de emendas.

Embora a nova proposta para 2026 supere a sugestão inicial do ano passado, ela ainda equivale a menos da metade do orçamento atual em vigor. Quando corrigido pela inflação, o recuo nos investimentos é ainda mais severo, atingindo uma redução real de 56,8% em relação aos R$ 38,2 milhões atualizados.

Estado de SP registra o maior número de feminicídios e agressões contra mulheres da história

Os crimes de feminicídio em São Paulo chegaram a 233 casos no acumulado de janeiro a novembro de 2025, a maior marca desde o início da série histórica, em 2018. Os dados foram divulgados em 30 de dezembro pela Secretaria da Segurança Pública (SSP).

Somente no mês de novembro, foram registrados 26 feminicídios no estado, número inferior ao do mesmo período do ano passado, quando houve 35 ocorrências. A capital paulista contabilizou cinco casos no mês e chegou a 58 registros no acumulado do ano, ultrapassando novamente o recorde anterior.

As agressões contra mulheres classificadas como lesão corporal dolosa também atingiram o maior patamar desde 2012, com 61.474 registros nas delegacias em todo o estado. Apenas em novembro, foram 5.936 ocorrências, contra 5.522 no mesmo mês de 2024. A comparação desconsidera 2011, quando os dados começaram a ser divulgados apenas a partir de setembro.

Os números indicam que 2025 foi o ano mais violento para mulheres no Estado de São Paulo, marcado por crimes de extrema brutalidade.

Os registros de estupro também permanecem elevados. No acumulado do ano, o estado contabilizou 13.355 ocorrências, número semelhante ao de 2024, com variação de 0,9% para baixo. Em novembro, foram 260 casos.

Ligue 180

Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço de utilidade pública essencial para o enfrentamento à violência contra as mulheres. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

A denúncia no Ligue 180 pode ser feita de forma anônima e a pessoa que fizer a denúncia não será identificada.

É possível fazer a ligação de qualquer lugar do Brasil ou acionar o canal via chat no Whatsapp (61) 9610-0180. Em casos de emergência, deve ser acionada a Polícia Militar, por meio do 190.