Por: Redação

Inteligência Artificial ajuda a entender e combater o comportamento sedentário

Para uma vida saudável, o ideal é fazer 75 minutos de atividade vigorosa por semana, que podem ser divididos em 15 minutos por dia, em cinco dias | Foto: Freepix

Quando um novo ano começa, muita gente coloca entre suas resoluções a de vencer o sedentarismo. A Ciência já comprovou que praticar atividade física garante saúde e bem-estar, mas dar o primeiro passo exige determinação. “Ser sedentário não significa apenas não praticar exercícios físicos. O sedentarismo está relacionado, sobretudo, ao excesso de tempo em comportamentos de baixo gasto energético, como permanecer sentado ou deitado por longos períodos ao longo do dia. Uma pessoa pode, por exemplo, passar de oito a dez horas sentada no trabalho e ainda frequentar a academia regularmente. Nesse caso, ela é fisicamente ativa, mas apresenta um alto nível de comportamento sedentário no cotidiano”, afirma o pós-doutorando Vitor Tessutti, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp e especialista em ciências da saúde e corrida.

Vencida a barreira inicial, como acertar a quantidade de exercícios? “Para uma vida saudável, o ideal é fazer 75 minutos de atividade vigorosa por semana, que podem ser divididos em 15 minutos por dia, em cinco dias, e de 150 a 300 minutos semanais de atividades leves e moderadas, justamente para quebrar o comportamento sedentário”, explica.

“Muitas vezes, as pessoas deixam de se movimentar porque acreditam que só vale a pena se exercitar por longos períodos, quando, na prática, pequenas mudanças distribuídas ao longo do dia já fazem diferença, como caminhar ou subir escadas, por exemplo”, completa Tessutti. Ele e o doutorando Alexis Aldo Mendoza, do projeto Viva Bem, núcleo de Saúde e Bem-Estar do Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, do Instituto de Computação (IC) da Unicamp, trabalharam em um estudo com cerca de cem voluntários para coletar dados e desenvolver um modelo de IA voltado para o comportamento sedentário, com a ajuda dos chamados dispositivos vestíveis, como smartwatches e anéis inteligentes.

Em seu quinto ano de atividades, o Viva Bem , coordenado por Emely Silva, investiga dez aplicações de IA para saúde e bem-estar em parceria com a indústria, incluindo a detecção do comportamento sedentário. “A pesquisa com dispositivos vestíveis poderá, num futuro próximo, dar indicações de atividades para que uma pessoa saia desse comportamento sedentário e melhore antes que ocorra algum problema crítico de saúde”, explica Silva. “A IA é uma amiga, mas ela tem que ser usada de forma crítica. É o futuro que a gente gostaria. Precisamos entender como ela vai poder ajudar, e por isso deixo um convite aberto para quem quiser participar das nossas pesquisas no núcleo”, completa.

Desafios fora do laboratório

“A partir de sensores de movimento e sinais fisiológicos, como a frequência cardíaca, é possível estimar os níveis de atividade física ao longo do dia. Mas o grande desafio é identificar com precisão o comportamento sedentário fora do laboratório, no cotidiano. Por exemplo, ao trabalhar sentado, digitando, o movimento das mãos pode confundir o sensor do relógio, fazendo parecer que a pessoa está ativa, quando na verdade permanece sentada”, alerta Mendoza.

“Para resolver isso, criamos uma rede neural chamada XNet. O diferencial do nosso trabalho foi desenvolver um modelo que não olhasse apenas para o movimento bruto, mas também para a repetição e frequência desses movimentos, combinando essas informações de uma forma inteligente”, explica.

Para lidar com as limitações, os estudos combinaram dados de movimento com sinais fisiológicos. “Especialmente a frequência cardíaca, apesar de ela poder ser influenciada por fatores como café ou estresse. Mas a combinação com dados de movimento melhora a identificação da intensidade das atividades, especialmente quando se trata de diferenciar comportamentos sedentários de atividades leves”, completa.

Mendoza conta que, a partir das técnicas de aprendizado de máquina e redes neurais, os dados coletados foram segmentados em janelas. “O modelo faz a previsão da intensidade da atividade para cada intervalo. Também foi desenvolvido um sistema de análise visual. Além da precisão, a transparência é fundamental. As ferramentas de análise visual permitem compreender quais sinais e momentos são mais relevantes para a tomada de decisão do sistema.”

A detecção automática do comportamento sedentário abre caminho para intervenções personalizadas, como alertas para pausas ativas, definição de metas diárias e recomendações adaptadas à rotina de cada pessoa. “Mais do que estimular a prática de exercícios, essas estratégias valorizam pequenas mudanças no cotidiano, reforçando a ideia de que reduzir o tempo sentado é fundamental”, destaca Tessutti.

Equivalente metabólico

Do ponto de vista fisiológico, o comportamento sedentário é definido por atividades com gasto energético muito baixo, geralmente abaixo de 1,5 MET (múltiplo equivalente metabólico, medida que estima o gasto energético de atividade física para um indivíduo).

Esse valor é medido a partir da respiração e do consumo de oxigênio do corpo. A quantificação em METs permite classificar as atividades do dia a dia em quatro níveis: comportamento sedentário, atividades leves, moderadas e vigorosas. Permanecer sentado ou deitado por longos períodos se enquadra no nível mais baixo dessa escala.

“Em uma rotina de trabalho, por exemplo, normalmente a pessoa fica sentada por quatro horas pela manhã, desloca-se para almoçar e depois permanece mais quatro horas sentada à tarde. O ideal é levantar a cada hora por cerca de três minutos, caminhar um pouco e depois retornar ao trabalho. Isso já ajuda a reduzir os impactos do sedentarismo”, afirma Tessutti. Por isso, a ideia de monitorar movimentos é vista como grande aliada. “Hoje, pelo celular, por exemplo, a pessoa já consegue se organizar, seja contando passos ou subindo escadas. O importante é estabelecer metas”, completa.

“As ferramentas ajudam as pessoas a se conhecerem melhor. A partir dos históricos [dos aplicativos] é possível observar que, depois de períodos maiores de atividades moderadas e leves, elas se sentem bem; já quando permanecem sentadas por muito tempo, costumam relatar dores nas costas ou baixa energia”, completa Mendoza. “O interessante é dar controle para a pessoa para que ela possa fazer as melhores escolhas.”

Mas Tessutti lembra que a tecnologia não deve ser a única aliada contra o sedentarismo, já que o ambiente e as políticas públicas têm papel fundamental nesse combate. “Longos deslocamentos, jornadas extensas de trabalho e falta de infraestrutura dificultam a prática de atividade física. Estratégias urbanas que favoreçam deslocamentos a pé e reduzam o tempo gasto em transporte podem contribuir significativamente para a redução do sedentarismo.”

As informações são do site do site unicamp.br