Por: Ana Carolina Martins

Pedreira do Chapadão: da extração ao coração verde da Zona Norte

A partir da revitalização, a Pedreira do Chapadão reafirmou a sua vocação como espaço democrático capaz de atender públicos diversos | Foto: Carlos Bassan/ PMC

A Pedreira do Chapadão, oficialmente denominada Praça Ulysses Guimarães, é um daqueles lugares nos quais a paisagem urbana se mistura de forma indissociável com a memória coletiva de Campinas. Localizada no bairro Jd. Chapadão, em uma área estratégica da Zona Norte, ela carrega, em suas paredes de pedra, trilhas e espelhos d’água, uma história que começou muito antes dela se tornar um dos parques mais frequentados pela população.

Antes de dar lugar ao espaço de lazer, a área foi, por décadas, uma pedreira em plena atividade. A extração de rochas, especialmente do basalto, começou na primeira metade do século 20, quando o município passava por um intenso processo de urbanização e demandava matéria-prima para a pavimentação de ruas, construção de prédios e obras viárias.

Essa foi a pedreira que forneceu material para a expansão da cidade, ajudando a delinear fisicamente Campinas, ao mesmo tempo em que deixava uma marca profunda na paisagem: um enorme vazio escavado, cercado por paredões de pedra. Um resultado direto do avanço urbano e industrial.

A virada de chave

Com o passar do tempo e o crescimento dos bairros residenciais ao redor, a atividade de extração se tornou incompatível com a vida urbana, e a pedreira foi desativada. Durante algum tempo, o local passou por um período de abandono, marcado por degradação ambiental, descarte irregular de lixo e resíduos e o abandono pelo poder público. O que antes havia sido um símbolo de progresso, passou a ser um problema urbano, um espaço ocioso em uma região em franca valorização.

A virada ocorreu nos anos 1990, quando a Prefeitura de Campinas decidiu transformar a antiga pedreira em um equipamento público de lazer e convivência. Quatro anos depois, em 1994, aconteceu oficialmente a inauguração da área como praça, recebendo o nome de Ulysses Guimarães, em homenagem ao político e defensor da democracia brasileira.

A escolha do nome não foi aleatória, visto que o projeto de recuperação do local simbolizava a ideia de renovar o que antes havia sido degradado, devolvendo-o à população, agora com um novo significado e função social.

Ressignificação

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Um dos marcos do processo de ressignificação da Pedreira encontra-se no Memorial Ulysses Guimarães | Foto: Carlos Bassan/ PMC

Um dos marcos do processo de ressignificação é o Memorial Ulysses Guimarães, uma escultura monumental instalada no interior do parque, cuja estrutura metálica imponente, carrega gravada a frase “Nós não viemos aqui para ter medo”, garantindo que o local se tornasse um símbolo de memória política e reflexão histórica. O memorial passou a dialogar diretamente com o ambiente da antiga pedreira, criando um contraste simbólico entre a dureza da rocha e a maleabilidade da democracia.

Ao longo dos anos, a Pedreira do Chapadão consolidou-se como um dos principais espaços públicos de Campinas, embora tenha enfrentado alguns períodos de descuido e deterioração. A falta de manutenção, especialmente no início dos anos 2000, comprometeu as estruturas, áreas verdes e equipamentos, gerando críticas e reivindicações da população local.

O sentimento de pertencimento, entretanto, nunca se perdeu, visto que os moradores do entorno e frequentadores habituais consideram a Pedreira um espaço essencial para a qualidade de vida urbana.
Essa vinculação foi decisiva para que, em 2013, o parque passasse por uma grande revitalização, que foi considerada um divisor de águas em sua história. As obras recuperaram as áreas degradadas, modernizaram a infraestrutura e ampliaram as possibilidades de uso do espaço.

A pista de caminhada e corrida foi requalificada, novos equipamentos esportivos e de lazer foram instalados, áreas de convivência foram reorganizadas e o paisagismo recebeu atenção especial, com a recuperação de gramados, jardins e do lago, que hoje é um dos pontos mais fotografados do parque.

Espaço democrático

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A Pedreira do Chapadão tornou-se um dos principais refúgios urbanos da cidade, oferecendo contato com a natureza | Foto: Carlos Bassan/ PMC

A partir dessa revitalização, a Pedreira do Chapadão reafirmou a sua vocação como espaço democrático capaz de atender públicos diversos. Ali convivem atletas amadores, famílias com crianças, idosos em caminhadas matinais, jovens em atividades culturais e moradores em busca de descanso e contemplação. O parque tornou-se um dos principais refúgios urbanos da cidade, oferecendo contato com a natureza em meio ao tecido urbano consolidado.

Nos últimos anos, o local também passou a enfrentar novos desafios, especialmente em relação à segurança geológica. Episódios de deslizamento de pedras, provocados por chuvas intensas, levaram à adoção de medidas preventivas, como o isolamento de áreas próximas aos paredões rochosos e intervenções estruturais para garantir a segurança dos frequentadores. Essas ações revelam a complexidade de se preservar um patrimônio que é, ao mesmo tempo, natural, histórico e urbano.

Hoje, a Pedreira do Chapadão é um símbolo da capacidade de Campinas de transformar cicatrizes do passado em espaços de convivência e bem-estar. Sua trajetória reflete o próprio percurso da cidade: do avanço industrial à preocupação com qualidade de vida, do abandono à revitalização, da exploração à preservação. Para os campineiros, a Pedreira não é apenas um endereço ou um ponto no mapa, mas um lugar de memória, encontro e identidade, onde as pessoas se reconhecem e se reinventam todos os dias.

Saiba quem foi Ulysses Guimarães

Nascido em 6 de outubro de 1916, em Rio Claro, o advogado e professor construiu uma das mais longas e influentes trajetórias da política brasileira, exercendo 11 mandatos consecutivos como deputado federal, entre 1951 e 1995. Foi ainda ministro da Indústria e Comércio, presidiu a Câmara dos Deputados em diferentes períodos e comandou a Assembleia Nacional Constituinte, sendo o responsável pela promulgação da Constituição de 1988. Líder histórico do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e fundador do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), destacou-se à frente de movimentos como a campanha pelas Diretas Já. Ulysses morreu em 12 de outubro de 1992, em um acidente aéreo no litoral do Rio de Janeiro.