Por: Ana Carolina Martins

Mercadão de Campinas: história, resistência e reinvenção

O Mercado Municipal de Campinas é um dos espaços mais emblemáticos, democráticos e queridos da população. Nele, é possível se achar de um 'tudo' | Foto: Firmino Piton/PMC

Na área central da metrópole, incrustado entre as ruas Benjamin Constant, Ernesto Kuhlmann, Barreto Leme e Álvares Machado, ergue-se um monumento que é, ao mesmo tempo, relíquia viva do passado e ícone no presente: o Mercado Municipal, carinhosamente chamado pela população de ‘Mercadão’, um dos espaços mais emblemáticos da cidade.

Entrar nele é muito mais do que apenas atravessar uma porta. É cruzar um tempo… O olfato chega antes mesmo da visão, nos temperos que contam histórias, no café recémcoado e nas frutas cortadas com a precisão de quem aprendeu o ofício observando o pai, o avô, o vizinho do box ao lado. O piso ecoa passos antigos e novos misturados, como se a cidade inteira passasse por ali todos os dias… E passa.

Inaugurado em 12 de abril de 1908, a magnífica construção de arquitetura neomourisca, idealizada pelo engenheiro-arquiteto, professor e empreendedor paulista, Ramos de Azevedo, nasceu para organizar o abastecimento urbano em uma Campinas que crescia impulsionada pela força do café e pela chegada das ferrovias.

Aqui, abrimos um parênteses para mencionar que entre os edifícios que Ramos projetou e que hoje são considerados marcos arquitetônicos estão: na capital paulista, o Theatro Municipal, o Mercado Municipal e a Pinacoteca do Estado de São Paulo; em Campinas, além do Mercadão, a Catedral Metropolitana da cidade; e, no Rio de Janeiro, o projeto do Pavilhão de São Paulo para a Exposição Nacional de 1908, um marco arquitetônico na Urca para as comemorações do centenário da Abertura dos Portos, demonstrando todo o  ecletismo,  modernidade no uso de técnicas construtivas e integração paisagística de  Ramos de Azevedo.

Raízes profundas

Quando a edificação foi erguida, Campinas crescia enquanto polo agrícola e comercial do interior paulista. O espaço foi inicialmente projetado para servir como depósito de produtos trazidos pela Estrada de Ferro Funilense, especialmente o açúcar que seguiria para exportação antes de se transformar no mercado que conhecemos hoje. Com o passar do tempo, tornou-se o mais antigo e expressivo centro de compras do município.

Entre as décadas de 1930 e 1960, em suas bancas e corredores passaram a ecoar as vozes de intelectuais, artistas, jornalistas e políticos, que se reuniam para discutir os grandes temas da vida municipal e nacional, em meio ao cheiro de café fresco, grãos, especiarias e pão quente.

Sua importância histórica e arquitetônica foi oficialmente reconhecida com o tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), em 1983, e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), em 1995. Preservar o local significa também preservar a sua função social: a de espaço popular, acessível e vivo.

"O Mercadão é uma parte viva da história de Campinas. Valorizar esse espaço é preservar a memória afetiva da cidade e garantir que esse patrimônio continue sendo ponto de encontro, identidade e orgulho do campineiro", afirma o prefeito de Campinas, Dário Saadi.

Diversidade, tradição e movimento

Com mais de um século de vida, o Mercadão mantém uma vocação popular vibrante. Hoje, ele abriga uma comunidade de comerciantes apaixonados, com cerca de 143 boxes no prédio central e 45 bancas externas — muitos deles tocados por famílias que ali trabalham há gerações, mantendo tradições alimentares, sabores e saberes locais.

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Milhares de pessoas passam diariamente pelo Mercadão | Foto: Rogério Capela/PMC

Pelo seu fluxo intenso, é estimado que milhares de pessoas passem diariamente pelo Mercadão, comprando temperos raros, frutas frescas, queijos artesanais, carnes especiais, peixes, artigos para feijoada ou simplesmente buscando o tradicional pão com mortadela que virou peça indispensável de tantas manhãs campineiras.

Mais do que um centro de abastecimento, o Mercadão é um ponto de convivência: ali se encontra o sorriso conhecido do feirante, a conversa fiada no balcão, a curiosidade de turistas, o aroma dos petiscos servidos nos bares e restaurantes que animam o local.

A maior reforma de sua história

Como todo patrimônio centenário, o Mercadão enfrentou o desgaste do tempo e, em 24 de julho de 2023, teve início a maior obra de revitalização já realizada em seus 116 anos de história, com investimentos que ultrapassaram os R$ 8,5 milhões — parte deles financiados por emenda parlamentar junto ao Ministério do Turismo e contrapartida do município.

O projeto não se limitou a apenas uma pintura nova ou um ajuste superficial. Ele previu uma requalificação estrutural completa, com troca do telhado, modernização das redes elétrica, hidráulica e de gás, melhorias de acessibilidade e a criação de um novo mezanino gastronômico, que agora abriga restaurantes com vista para o mercado.

Durante o período de obras, os comerciantes foram transferidos para estruturas provisórias montadas no entorno. Foram meses de adaptação, de incertezas e de resistência. Mesmo longe de suas paredes históricas, o Mercadão continuou existindo no esforço diário daqueles que mantiveram as bancas funcionando sob sol e chuva, aguardando o retorno à construção original.

Finalmente, em 31 de julho de 2025, a revitalização foi oficialmente concluída, dando início a um novo capítulo: a reabertura gradual dos boxes, o retorno dos comerciantes ao espaço histórico e a reorganização da vida comercial no prédio emblemático.

O legado: memória e futuro

Hoje, o Mercadão segue sendo um refúgio de memórias, um pedaço da história de Campinas que resiste e se reinventa. Ali, avós levam netos pela mão, explicando onde compravam o queijo “igual ao de antigamente”; jovens descobrem sabores que não estão nos shoppings, trabalhadores encontram pausa e turistas fotografam vitrais e fachadas singulares.

Assim, entre aromas, vozes e sorrisos, o Mercadão segue sendo patrimônio vivo — uma prova de que, mesmo em tempos modernos, os lugares que guardam as nossas lembranças são capazes de nos surpreender com novas histórias a cada dia.