Por: Moara Semeghini - Campinas

Inventado em Campinas, feijão-carioca perdeu neste ano seu criador

O feijão-carioca, apesar do nome, não nasceu no Rio de Janeiro, mas em Campinas, no IAC | Foto: Sebastião Araújo/Embrapa

Os cariocas comem feijão preto, mas o feijão-carioca, que é marrom, é o preferido da maioria dos brasileiros. Responsável por cerca de dois terços de todo o feijão consumido no Brasil, o feijão-carioca, apesar do nome, não nasceu no Rio de Janeiro, mas em Campinas (SP), a partir de pesquisas conduzidas no Instituto Agronômico (IAC). O "inventor" foi o engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida, que morreu no início deste ano, aos 84 anos, no dia 2 de janeiro. A morte foi divulgada pelo IAC na última semana. 

Conhecido como o “pai do Carioquinha”, D’Artagnan foi o responsável por chefiar os testes agronômicos e culinários que levaram ao lançamento oficial da variedade em 1969. À época, o feijão-carioca representou uma inovação significativa para a agricultura brasileira, reunindo produtividade elevada, maior resistência a doenças e pragas, além de boa aceitação culinária.

A história do grão começou em 1966, quando sementes rajadas foram encaminhadas ao IAC para avaliação. O material havia sido apresentado pelo engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes. Coube a D’Artagnan, ao lado dos pesquisadores Shiro Miyasaka e Hermógenes Freitas Leitão Filho, conduzir as análises que comprovaram o potencial da variedade. Três anos depois, o feijão foi oficialmente lançado e incorporado ao programa de produção de sementes básicas da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati).

Segundo o pesquisador do IAC Alisson Fernando Chiorato, que atua com melhoramento genético do feijão, o sucesso do carioca se deve a um conjunto de fatores. “Era uma variedade mais produtiva, resistente a doenças, cozinhava mais rápido, fazia um bom caldo e tinha sabor agradável”, explicou em entrevista anterior. Além disso, houve um esforço intenso de divulgação junto aos agricultores paulistas, o que ajudou a consolidar o grão no mercado interno.

O feijão-carioca, no entanto, não teve a mesma aceitação fora do Brasil, o que limitou possibilidades de exportação em momentos de excesso de produção. Ainda assim, sua hegemonia no consumo nacional se manteve ao longo das décadas. Na década de 1970, com a implantação do Programa de Melhoramento Genético do Feijão, a variedade se consolidou como a preferida dos brasileiros, alcançando cerca de 66% do consumo nacional — índice que permanece como referência até hoje.

O nome “carioca” também desperta curiosidade. De acordo com o IAC, a denominação surgiu pela semelhança da coloração marrom-rajada do grão com a pelagem de uma raça de porco caipira conhecida como “carioca”, criada no interior paulista. Desde então, ao menos 42 variações do feijão-carioca foram desenvolvidas pelo instituto.

Luiz D’Artagnan de Almeida ingressou no IAC em 1967 e atuou na instituição até sua aposentadoria, em 2002, na então Seção de Leguminosas. Ao longo da carreira, recebeu diversas homenagens por sua contribuição à agricultura brasileira. Seu legado permanece presente diariamente na mesa de milhões de brasileiros, para quem o feijão-carioca segue sendo sinônimo de comida caseira e identidade alimentar.