Por: Ana Carolina Martins

Torre do Castelo: farol de concreto que acolhe a cidade do alto

A antiga caixa d'água de 27 metros foi eleita uma das 'Sete Maravilhas de Campinas' | Foto: Firmino Piton/PMC

Desde o início da sua construção, entre 1936 e 1940, ela já carregava um sonho maior do que apenas armazenar água. Queria ser um símbolo de progresso e de um futuro organizado para uma cidade em expansão. Construída no estilo art déco, com 27 metros de altura e capacidade para 250 mil litros de água, sua função técnica de abastecer os bairros que surgiam ao norte de Campinas logo se misturou ao propósito simbólico de monumentalidade e modernidade.

Erguida em um dos pontos mais altos do município, a aproximadamente 735 metros de altitude, a Torre do Castelo logo ficou identificada na paisagem campineira como um farol urbano. Um lugar de onde se vê tudo e se sente o pulsar da urbe.

Com o tempo, o carinho dos campineiros por essa obra cresceu tanto que ela se transformou em algo além de uma infraestrutura, tornou-se um ponto turístico, parte afetiva da memória local. Na década de 1970, um mirante foi inaugurado no topo, proporcionando uma visão panorâmica de 360° da cidade. Em dias claros, até a Serra do Japi, cerca de 40km distante, entra no quadro da paisagem.

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Vista aérea da Torre do Castelo, ponto turístico e o mais alto da cidade | Foto: Firmino Piton/PMC

Transformações

No entanto, a história da Torre é parte integrante das transformações emblemáticas urbanas e culturais do município. Em 1972, uma reforma criou um espaço circular em seu interior, como parte de um novo projeto urbanístico da praça. Em 1991, outras mudanças permitiram a instalação do Museu Histórico da Sanasa em seu interior para preservar objetos e memórias que contam sobre a evolução do abastecimento de água e saneamento da cidade.

Ao longo das décadas, a construção viveu várias fases e significou muito para os moradores, testemunhando passeios emocionantes ao seu mirante, tardes de encontro com amigos ao pôr do sol no topo da cidade e fins de semana em que sua praça servia como ponto de encontro, testemunhando pequenas celebrações comunitárias. Hoje, o local é considerado uma das “Sete Maravilhas de Campinas”, eleita por votação como um dos ícones que mais emocionam e orgulham a população.

O local recebeu um complemento em seu nome, passando a se chamar Torre do Castelo Vitor Negrete, em 2007, em homenagem ao primeiro alpinista brasileiro a conquistar o cume do Monte Evereste, o ponto mais alto do mundo. E, em 2008, devido ao seu valor histórico e arquitetônico, a Torre foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc), ajudando a preservar uma referência da história da cidade.

Vínculo profundo

Quando caminhamos pela Praça 23 de Outubro, olhamos para a estrutura e sentimos um vínculo profundo, considerando-se que ela é testemunha silenciosa das batalhas, das conquistas e das histórias de vida de muitos campineiros e campineiras. É um monumento que não apenas observa a cidade, como também é observado com afeto e saudade por quem cresceu, amou e viveu suas alegrias sob a sua imponente presença.

A praça ao redor também tem as suas histórias. Já foi palco de eventos culturais, apresentações musicais, homenagens cívicas e encontros comunitários que ajudaram a transformar o espaço em lugar de convivência. Em datas simbólicas, a Torre ainda ganha iluminação especial, sendo ainda palco de manifestações e celebrações.

Há também as histórias miúdas, quase invisíveis, mas cheias de significado: casais que tiraram fotos de noivado e casamentos ali; fotógrafos amadores que esperavam o pôr do sol perfeito; trabalhadores que passavam diariamente por lá e, sem perceber, criavam uma relação íntima com aquela presença constante. A Torre estava ali, firme, silenciosa, observando tudo.

Encontros e memória

Ela nunca foi apenas concreto, ferro e reservatório... Para muitos campineiros, ela foi ponto de encontro antes mesmo de ser destino. “Vamos nos encontrar na Caixa d’Água?” era frase comum, dita com naturalidade, como quem marca encontro na casa de um velho amigo.

Há quem lembre das subidas ao mirante como um pequeno ritual de passagem. Crianças que seguravam forte a mão dos pais nos degraus estreitos, adolescentes que descobriram, lá do alto, que Campinas era maior do que o próprio bairro, o Jardim Chapadão. Muitos contam que viram ali, pela primeira vez, o desenho completo da cidade: o centro antigo, as avenidas se abrindo, o verde resistindo aqui e ali, além do horizonte largo que fazia a gente se sentir parte de algo maior.

Com o tempo, quando o acesso ao mirante foi fechado e as visitas se tornaram mais raras, surgiu um sentimento curioso, uma espécie de "saudade de algo que ainda está ali". A antiga caixa d’água continua em pé, imponente, mas vive também na memória coletiva como um lugar onde muita gente aprendeu a olhar a cidade com outros olhos. Não é raro ouvir alguém dizer: “Você lembra quando dava para subir?” — e, nesta pergunta, vem junto um pedaço da própria juventude.

Talvez seja por isso que o carinho dos moradores e da população em geral por esse monumento seja tão profundo. A Torre do Castelo não é apenas um marco urbano, é um guardião de histórias, um símbolo de pertencimento. Ela viu Campinas crescer, transformar-se e se reinventar. E continua ali, lembrando que a cidade também é feita de afetos, de encontros e de memórias compartilhadas.