Entrar hoje na Casa do Sol é atravessar o lar de alguém que sempre insistiu em perguntar — e também em responder — com uma linguagem que queima e consola. Os móveis, as prateleiras, os papéis e até as redes no alpendre continuam a contar, em voz baixa, o que a escritora Hilda sabia: que toda escrita é uma tentativa de domesticar o impossível. Campinas dispõe agora de um lugar que guarda essa tentativa. O desafio será cuidar bem dele e permitir que outras vozes entrem em diálogo com ela, que a alimentem, a contestem e a reescrevam.
Em setembro deste ano, depois de uma restauração que devolveu toda a plenitude arquitetônica e poética da antiga construção, as portas da Casa do Sol, em Campinas, estão abertas novamente. A iniciativa oferece à população a possibilidade de compartilhar o espaço íntimo da escritora que fez da contradição e do excesso material farto para desenvolver uma brilhante carreira literária, apresentando uma obra disruptiva e singular.
Naquele chão de barro batido e sob a mesma figueira que ouviu os seus versos, a cidade agora reencontra Hilda Hilst — com seus questionamentos, escândalos e devaneios. A reinauguração, marcada por uma feira literária e uma programação de residências artísticas entre agosto e setembro de 2025, ocorreu quando o Instituto Hilda Hilst apresentou ao público o resultado de meses — no caso da construção, anos — de restauro e curadoria.
O restauro, que recebeu investimentos significativos, buscou preservar a atmosfera original do casarão, adequando o espaço para receber atividades culturais, acessibilidade e pesquisa. A Prefeitura de Campinas e o Instituto reforçam que o projeto não é mera museificação fria: o quarto da escritora, parte do acervo pessoal (manuscritos, roupas, biblioteca) e cômodos de uso criativo foram pensados para conjugar preservação e produção — um arquivo que ainda respira. O espaço também foi tombado pelo órgão municipal de patrimônio, reafirmando o seu lugar na memória arquitetônica e cultural de Campinas.
Vida e obra
Hilda de Almeida Prado Hilst nasceu em Jaú (1930) e construiu uma obra que atravessa a poesia, a prosa, o teatro e o ensaio. Formada em Direito, cedo decidiu dedicar-se à escrita, consolidando-se, a partir dos anos 1960, como voz inquieta e independente da literatura brasileira. Ao longo de quase cinco décadas, tratou, sem pudor, de temas que abalaram convenções: a morte, o erotismo, o misticismo, a loucura e a busca por Deus — tudo isso atravessado por uma linguagem intensa, fragmentária e, por vezes, quase litúrgica. Pela originalidade e fôlego, passou a ser reconhecida como uma das mais importantes autoras em língua portuguesa do século XX.
A Casa do Sol, pensada por Hilda como um refúgio criativo desde meados da década de 1960, tornou-se ponto de encontro para escritores, músicos e artistas. Ali foram escritos livros que sacudiram leitores e críticos, ali chegaram hóspedes e polêmicas; ali também ela viveu boa parte de sua vida adulta até a sua morte, em 2004.
A jornalista, atriz e escritora Ana Lúcia Vasconcelos compartilhou da intimidade de Hilda. “Conheci a Hilda em 1968, dois anos depois dela ter se mudado para a Casa do Sol e continuei amiga dela até a sua morte em 2004”, revela. Segundo Ana, foram muitas as entrevistas com a escritora, as quais resultaram em um livro, uma produção independente, lançado em 2018: “A intensa, extremada, delirante Hilda Hilst”, que mistura memórias e ensaio sobre a sua vida e obra. “O restauro da Casa do Sol foi uma iniciativa fundamental para a preservação da obra de Hilda, garantindo que a posteridade possa conhecer o local, o casarão, onde a Hilda viveu e criou a parte mais importante de sua obra”, afirma a também escritora.
Sem 'papas na língua'
Hilda Hilst não foi apenas celebrada. Sua atitude provocadora, suas escolhas temáticas — a nudez da linguagem, a exposição do desejo, a insistência em dialogar com Deus e com o insondável — incomodaram críticos e públicos em diferentes momentos. Intervenções públicas, entrevistas sem “papas na língua” e a franqueza com que abordava sexualidade e loucura alimentaram debates, críticas e rótulos.
Tais controvérsias integraram, paradoxalmente, a potência de sua obra. O escândalo funcionava como dispositivo; a polêmica, como meio de provocar perguntas que a literatura raramente ousa fazer.
Além do embate estético, disputas mais mundanas compuseram o folclore em torno de sua figura, como suas diferenças com editores, escolhas sobre a guarda do acervo, amizades e desentendimentos com convidados e parceiros artísticos. Aqui, a cautela jornalística é necessária: muitas das narrativas populares que circulam entre amantes da literatura misturam memória afetiva, boato e versões díspares. O que não se discute é que a casa e a vida de Hilda sempre foram palco de encontros intensos e, por isso mesmo, potencialmente conflituosos.
De acordo com estudos, Hilda construiu uma persona forte, pública, de “artista mística e transgressora”: suas entrevistas muitas vezes misturavam irreverência, piadas, palavrões e evasão, para desconcertar seus interlocutores. Em seu discurso público, ela dizia explicitamente que não se importava com etiquetas sociais (classe, gênero): havia nela uma rejeição consciente dos papéis tradicionais.
Reconhecimento
Para a cena cultural campineira, a abertura plena da Casa do Sol é um gesto simbólico e prático: trata-se do reconhecimento de uma filha ilustre da cidade — e da região —, devolvendo ao público um território de memória onde a escrita se materializa em objetos, cheiros e ruídos de piso.
Na prática, oferece um programa de residências, atividades educativas e um lugar de pesquisa para estudantes e curiosos — um esforço para transformar o patrimônio em tecido vivo, acessível e gerador de futuro. O tombamento municipal e os investimentos em restauro apontam para a vontade institucional de proteger essa riqueza literária, assim como para o desafio de sustentar, financeiramente e programaticamente, um lugar que pulsa entre memória e criação.
Preservar sem petrificar
Restaurar a Casa do Sol foi, nas palavras de quem trabalhou no projeto, devolver à casa sua “plenitude arquitetônica e poética”: um lugar onde se respira linguagem. Resta saber como serão geridos os limites entre visitação e intimidade, entre o acervo que é pesquisa e também relíquia, e a casa, que deve continuar sendo espaço vivo de criação, com programações que dialoguem com escolas, leitores e artistas. A responsabilidade é grande: um patrimônio cultural assim pede atenção curatorial, diálogo com a cidade e, sobretudo, a sensibilidade de quem entende que memória é também processo.