Pacientes em processo de recuperação após um Acidente Vascular Cerebral (AVC) têm recorrido a novas abordagens terapêuticas em centros especializados de reabilitação da rede pública de saúde de São Paulo. Entre os recursos disponíveis, o uso de robôs com dinâmicas semelhantes às de jogos digitais tem sido incorporado como estratégia complementar para estimular a retomada de movimentos e funções do dia a dia.
A tecnologia propõe substituir parte dos exercícios repetitivos tradicionais por atividades interativas que simulam tarefas cotidianas, como lançar objetos, pintar ou manipular utensílios. Durante as sessões, os movimentos realizados pelos pacientes são monitorados em tempo real, com registro de dados como força, velocidade, precisão e trajetória, o que permite acompanhamento mais detalhado da evolução clínica.
Casos acompanhados nos centros indicam avanços progressivos na autonomia dos pacientes. Uma mulher de 47 anos, que sofreu um AVC em 2024, relata ter retomado atividades básicas após cerca de um ano de acompanhamento com a terapia robótica. Inicialmente desconfiada da tecnologia, ela passou a perceber melhora gradual na execução de tarefas simples, como cozinhar e realizar cuidados pessoais. Além desse recurso, o tratamento incluiu suporte psicológico e o uso de equipamentos auxiliares.
Dados da Secretaria Municipal de Saúde apontam aumento na procura por serviços de reabilitação nos últimos anos. Entre 2021 e 2025, o número de atendimentos a pessoas com histórico de AVC cresceu cerca de 74%, passando de pouco mais de 10 mil para aproximadamente 17,6 mil registros anuais. A rede atende diferentes demandas, incluindo reabilitação física, auditiva, visual e intelectual.
Dentro desse contexto, a robótica tem sido utilizada como ferramenta adicional aos tratamentos convencionais. Um dos dispositivos empregados é um equipamento portátil desenvolvido no Brasil, voltado à recuperação dos movimentos dos membros superiores. Por meio de uma manopla acoplada ao sistema, o paciente interage com ambientes virtuais que estimulam movimentos específicos.
Profissionais envolvidos no atendimento destacam que um dos diferenciais da tecnologia está na possibilidade de personalização. Antes do início das atividades, o sistema realiza uma avaliação do nível de mobilidade e precisão do paciente, ajustando o grau de assistência necessário. Ao final de cada sessão, relatórios são gerados para orientar a continuidade do tratamento.
O próprio sistema também adapta automaticamente o nível de dificuldade dos exercícios, aumentando os desafios de forma gradual conforme o desempenho do paciente evolui. Essa lógica, inspirada em jogos eletrônicos, tende a tornar o processo mais atrativo, além de favorecer a repetição intensiva de movimentos, considerada essencial na reabilitação motora.
Outro paciente, de 37 anos, que sofreu um AVC no fim de 2024, também relata melhora na autonomia após iniciar o uso da tecnologia. Encaminhado por uma unidade básica de saúde, ele afirma que, com o tempo, conseguiu retomar atividades cotidianas como higiene pessoal sem auxílio.
Especialistas ressaltam que o uso de robôs não substitui as demais abordagens terapêuticas, sendo parte de um plano integrado que pode envolver fisioterapia, fonoaudiologia, neuropsicologia, entre outras intervenções. A combinação entre diferentes áreas tem sido apontada como fator importante para resultados mais consistentes.
Profissionais da rede também observam mudanças no perfil dos pacientes atendidos. Há uma tendência de ocorrência de AVC em faixas etárias mais jovens, associada a fatores como estresse, alimentação inadequada, sedentarismo e outras condições de risco. Nesse cenário, estratégias que aumentem o engajamento no tratamento têm sido consideradas relevantes para a recuperação funcional e qualidade de vida dos pacientes.