Por: Da Redação

Ricardo Nunes recria Romu e reforça viés policial da GCM

Processo do Prefeito de SP teve origem durante o período mais intenso das últimas eleições | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) avançou em mais uma mudança na estrutura da Guarda Civil Metropolitana (GCM) com o objetivo de ampliar seu caráter ostensivo e aproximá-la do modelo policial. Em decreto publicado em janeiro, a prefeitura recriou a Ronda Ostensiva Municipal (Romu), rebatizando a antiga Inspetoria de Operações Especiais (Iope) e retomando uma nomenclatura criada nos anos 1990, durante a administração de Paulo Maluf.

A medida ocorre após tentativas frustradas de Nunes de alterar oficialmente o nome da GCM para Polícia Municipal, iniciativa barrada pela Justiça paulista no ano passado. Mesmo com o veto judicial, o prefeito segue adotando, em declarações públicas e comunicações institucionais, uma abordagem que associa a Guarda a funções típicas das polícias estaduais.

A mudança de nome foi formalizada em 19 de janeiro e integra um pacote mais amplo de reorganização interna da Secretaria Municipal de Segurança Urbana. Com o decreto, a Romu passa a assumir o efetivo, os recursos e as atribuições da antiga Iope, atuando em ações classificadas pela gestão como ostensivas, táticas e de maior complexidade, com foco em prevenção de crimes, controle da desordem urbana e resposta rápida a situações críticas.

No mesmo ato, a prefeitura criou a Inspetoria de Ações Táticas Especiais (Iate), que substitui a Inspetoria de Ações Integradas. A nova unidade foi desenhada para atender ocorrências consideradas de alta complexidade, como grandes emergências, crises urbanas e intervenções em áreas de risco elevado, ampliando o escopo de atuação operacional da GCM.

A Iope, agora extinta, havia sido criada em 2009, durante a gestão de Gilberto Kassab, e ficou conhecida principalmente pela atuação na região da cracolândia, no centro da capital. A unidade realizava abordagens, apreensões de drogas e ações de dispersão de usuários, operando com um padrão visual e tático mais próximo do adotado por forças policiais, inclusive no uso de uniformes diferenciados.

Nos últimos dias, Nunes também passou a divulgar publicamente a nova identidade visual da Romu. Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito apresentou a viatura que será utilizada pela unidade, um veículo do tipo SUV, com pintura em tons escuros e design semelhante ao de tropas especiais da Polícia Militar. As imagens reforçam a estratégia de comunicação da gestão, que busca associar a Guarda a uma atuação mais dura no enfrentamento da criminalidade.

A retomada da sigla Romu remete diretamente à experiência implantada por Paulo Maluf em 1993, quando o então prefeito criou as Rondas Municipais com o objetivo declarado de formar uma tropa de elite nos moldes da Rota, unidade especial da Polícia Militar paulista. À época, a iniciativa previa veículos reforçados, uso de armas longas e treinamentos baseados em técnicas policiais, o que gerou controvérsia sobre os limites constitucionais da atuação municipal na área da segurança pública.

O modelo não se consolidou na capital e acabou descontinuado, mas influenciou a criação de unidades semelhantes em municípios da Região Metropolitana de São Paulo, onde estruturas com o nome Romu permanecem em funcionamento até hoje.

Ao resgatar essa nomenclatura e ampliar o papel operacional da GCM, Ricardo Nunes reforça uma linha política que tem marcado sua gestão, especialmente no campo da segurança urbana. O prefeito tem defendido publicamente a ampliação das atribuições da Guarda como resposta à sensação de insegurança na cidade e como forma de suprir limitações do policiamento estadual, ainda que a Constituição atribua aos municípios um papel restrito nessa área.

Especialistas e entidades do setor acompanham com atenção os desdobramentos da medida, sobretudo após o veto judicial à tentativa de rebatizar a GCM como Polícia Municipal. A recriação da Romu, embora formalmente apresentada como reorganização administrativa, reabre o debate sobre até onde pode ir a atuação ostensiva da Guarda e quais são os limites legais e institucionais desse modelo defendido pela atual gestão municipal.