Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) aponta que o risco de morte de motociclistas em cruzamentos de vias com Faixa Azul é mais que o dobro do observado em locais sem esse tipo de sinalização na cidade de São Paulo. A análise indica que o excesso de velocidade é o principal fator associado ao aumento da letalidade nesses trechos.
Implantada em janeiro de 2022 com o objetivo de reduzir mortes no trânsito, a Faixa Azul consiste em uma sinalização viária exclusiva para motocicletas. Atualmente, o modelo ocupa pouco mais de um metro de largura e está presente em mais de 230 quilômetros de vias da capital paulista. O projeto completou quatro anos no último fim de semana.
De acordo com os dados analisados, a política pública não apresentou resultados consistentes do ponto de vista da segurança viária. Em diferentes cenários avaliados, os indicadores de acidentes graves e fatais se mantiveram estáveis ou registraram piora após a implantação da sinalização exclusiva para motos.
A pesquisa adotou uma metodologia semelhante à utilizada em testes clínicos, comparando vias com Faixa Azul a outras sem a sinalização, mas com características equivalentes, como número de faixas, volume de tráfego e perfil viário. A intenção foi isolar o efeito da Faixa Azul e verificar se houve diferença significativa na evolução dos indicadores de segurança após sua implementação.
Entre os exemplos analisados, avenidas com perfis semelhantes foram comparadas para avaliar variações no número de acidentes e mortes. Em diversos casos, os resultados foram semelhantes entre os dois grupos. Em outros, as vias com Faixa Azul apresentaram desempenho inferior em relação à segurança dos motociclistas.
As conclusões divergem de um levantamento divulgado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em 2025, que apontou redução de 47,2% nas mortes de motociclistas nos trechos onde a Faixa Azul foi implantada. O novo estudo questiona essa leitura ao destacar que outros fatores, como comportamento dos condutores e controle de velocidade, não foram plenamente considerados.
Um dos principais focos da análise foi a localização dos acidentes ao longo das vias. Os pesquisadores separaram os sinistros ocorridos no meio das quadras daqueles registrados em um raio de até dez metros dos cruzamentos. Foi nesses pontos de conflito que o aumento da letalidade se mostrou mais expressivo nas vias com Faixa Azul.
Segundo o estudo, a velocidade elevada entre os cruzamentos faz com que os motociclistas cheguem a essas áreas em condições mais perigosas, ampliando o risco de colisões graves. A combinação entre maior fluidez e menor fiscalização tende a estimular comportamentos mais arriscados ao longo do trajeto.
A velocidade dos motociclistas foi analisada por meio de imagens captadas por drones. Em vias com limite de 50 quilômetros por hora e com Faixa Azul, 96% das motos trafegavam acima do permitido. Em vias sem a sinalização exclusiva, o índice também foi alto, mas menor, chegando a 71%.
O levantamento também relaciona a dinâmica da Faixa Azul à pressão exercida entre os próprios motociclistas. Condutores que mantêm velocidades compatíveis com a via tendem a ser ultrapassados com frequência, o que contribui para situações de risco, especialmente em horários de pico.
Os dados de mortalidade reforçam o alerta. No ano passado, 475 motociclistas morreram no trânsito da capital paulista, número cerca de 15% superior ao registrado em 2022, quando a Faixa Azul começou a ser implantada. Em relação a 2024, houve leve queda, pouco acima de 1%. O menor número de mortes foi registrado em 2023, com 402 óbitos.
Diante dos resultados, os pesquisadores defendem a revisão da política e a adoção de medidas complementares, como reforço da fiscalização e maior controle de velocidade, principalmente nos cruzamentos, considerados pontos críticos da malha viária.
Em posicionamento oficial, a Prefeitura de São Paulo informou que o estudo não comparou os dados de mortalidade antes e depois da implantação da Faixa Azul nos mesmos trechos. Segundo a administração municipal, nesses locais, o número de mortes teria caído de 29 para 22 após a adoção da sinalização. A gestão também afirma que a velocidade média dos motociclistas na Faixa Azul ficou em torno de 49 quilômetros por hora e que a meta é alcançar 400 quilômetros de faixas exclusivas até 2028.