Por: Da Redação

Avenida Faria Lima abriga central de golpes em SP

Endereço comercial abrigava uma central de golpes | Foto: Divulgação/Deic

A Avenida Brigadeiro Faria Lima, uma das áreas mais valorizadas e simbólicas do mercado financeiro brasileiro, foi usada como base para a operação de uma central de golpes que lesou principalmente pessoas idosas em São Paulo. Instalado em um prédio comercial da via, o esquema explorava a reputação da região para conferir aparência de legitimidade às fraudes aplicadas contra vítimas em diferentes partes do país.

A estrutura funcionava como uma falsa central de cobrança e utilizava dados pessoais obtidos de forma ilícita para abordar pessoas por telefone e mensagens eletrônicas. As vítimas eram informadas sobre supostas pendências financeiras antigas, classificadas como créditos de difícil recuperação, e pressionadas a realizar pagamentos de valores que não deviam.

A escolha da Avenida Faria Lima como endereço da operação foi considerada estratégica pelos investigadores. A região concentra sedes de bancos, fundos de investimento, fintechs e empresas multinacionais, o que ajudava a sustentar o discurso adotado pelos operadores durante os contatos. A localização reforçava a ideia de que se tratava de uma empresa legítima do setor financeiro.

No prédio comercial, a polícia identificou uma estrutura de grande porte, com cerca de 100 funcionários e mais de 400 computadores em funcionamento. No mesmo endereço, operava uma empresa com atividades mistas: parte da equipe atuava em cobranças regulares, enquanto outra parcela era dedicada exclusivamente à aplicação dos golpes, o que dificultava a identificação imediata da fraude.

Durante a ação, foram apreendidos documentos, listas de contatos, roteiros de atendimento e materiais usados nas abordagens às vítimas. As investigações indicam que o esquema dependia de uma atuação agressiva, baseada na intimidação e na criação de um ambiente de urgência financeira e jurídica.

A estratégia incluía o disparo em massa de mensagens que simulavam comunicações oficiais, como notificações judiciais, alertas de protesto em cartório e avisos de bloqueio de CPF. Após receber essas mensagens, as vítimas eram orientadas a entrar em contato com a central, onde o golpe era aprofundado por meio de atendimento telefônico.

Nas ligações, os operadores se apresentavam como integrantes de setores jurídicos ou departamentos de cobrança. O discurso envolvia a ameaça de medidas como penhora de bens, bloqueio de contas bancárias, restrições de crédito e suspensão de benefícios, caso os pagamentos não fossem realizados de forma imediata.

Segundo os investigadores, o uso de termos técnicos, linguagem formal e referências ao sistema financeiro fazia parte da estratégia para confundir as vítimas e dificultar a percepção de que se tratava de um golpe. O modelo de atendimento seguia padrões empresariais, com divisão de funções, metas e supervisão interna.

A ação foi realizada no âmbito da Operação Título Sombrio, conduzida por policiais da 4ª Delegacia da Divisão de Crimes Cibernéticos, responsável por apurações relacionadas à lavagem e ocultação de ativos ilícitos por meios eletrônicos. O objetivo da operação é desarticular organizações criminosas que utilizam tecnologia e estruturas empresariais para cometer fraudes financeiras.

Além da base instalada na Avenida Faria Lima, outra unidade ligada ao grupo foi localizada em Carapicuíba, na Grande São Paulo. As duas estruturas atuavam de forma integrada, compartilhando dados operacionais, sistemas de atendimento e estratégias de abordagem às vítimas.

Ao todo, 12 suspeitos foram levados para a sede da divisão especializada para verificação da participação no esquema. As investigações também apontaram que as empresas envolvidas compartilhavam sócios, endereços e informações contábeis, o que indica a existência de uma organização criminosa estruturada e com divisão clara de funções.

A Polícia Civil segue analisando o material apreendido e não descarta a identificação de novos envolvidos e de um número maior de vítimas. O caso chama atenção para o uso indevido da imagem da Avenida Faria Lima, tradicional símbolo do mercado financeiro, como ferramenta para dar credibilidade a fraudes e enganar consumidores.