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Nordeste lidera mortes femininas por tiros

A região Nordeste concentrou mais da metade dos assassinatos de mulheres, por arma de fogo, no Brasil, em 2024.

Os dados são do relatório pela vida das mulheres - o papel da arma de fogo na violência de gênero, do Instituto Sou da Paz, divulgados neste mês da mulher.

Na avaliação social do problema, a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense, Jacqueline Muniz, acredita que a política que flexibilizou a compra de armas no Brasil, entre 2019 e 2022, foi um "desserviço" que explica parte do problema.

"A presença disseminada de armas de fogo e sua capilaridade, sua expansão, no seu barateamento, permitiu que o matador de mulher, que é sempre um cidadão de bem, um suposto bom pai e péssimo marido, ou péssimo ex-marido, ou péssimo ex-namorado, ou péssimo ex-companheiro, possa fazer uso desse recurso e se justificar.

A disseminação das armas de fogo, elas prestaram esse desserviço. E mesmo hoje com a mudança do decreto, com a mudança da legislação, tem muita arma que já tá na rua, tem muita arma que tá acessível.

Natália Pollachi, Diretora de projetos do Instituto Sou da Paz, atribui o problema, também a outros fatores, como acesso a serviços públicos e à questão social.

"Um deles é a disponibilidade de serviços públicos disponíveis, e aí os bairros com menos serviço público e possivelmente mais vulneráveis têm índices maiores de violência letal contra a mulher. Então pode ser uma questão relacionada a menor disponibilidade de serviços públicos em parte da região nordeste. E tem um segundo elemento bastante relevante, que é um elemento cultural: o quão disseminada tá a percepção de que as mulheres são pessoas com igualdade de direitos, ou quão disseminada tá a percepção, enfim, uma concepção ainda mais machista, ainda mais controladora e violenta da relação dessa sociedade com as mulheres."

Na avaliação de Jacqueline Muniz, as políticas sociais de autonomia às mulheres, por vezes, geram um "ressentimento" masculino sobre a perda de espaço "de autoridade".

Alta no nordeste

É a região do país que, proporcionalmente, é muito atendida por políticas sociais e outras formas de empoderamento doméstico e familiar, o que reforça o papel autônomo de independência das mulheres, o que gera um grau de reação à perda do domínio, à perda da autoridade dentro de casa.

É como se tivesse uma sobra de masculinidade que não pode ser gasta porque já perdeu esse monopólio, e que se expressa sobre a forma da violência. A violência é o ritual de você tentar resgatar um poder perdido que já não se coloca mais."