Por:

Hip Hop: Um espetáculo para as escolas de Brasília

Reynaldo Rodrigues

A partir da linguagem das cyphers (rodas de dança), o projeto "Hip Hop — Um espetáculo para o Brasil" promove imersão artística e pedagógica em escolas do Distrito Federal. Realizada com apoio do Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC-DF), a iniciativa propõe ir além do entretenimento, criando espaço de escuta, pertencimento e reflexão. Através das "batalhas", a ideia é convidar os estudantes a atravessarem a superfície estética do hip hop para acessar suas camadas mais profundas, com contexto social e político. Receberão o projeto o centro de esporte e cultura CÉU das Artes (Taguatinga Norte), em 04 de abril; CEF 03 (Brazlândia), em 06 de abril e CED 06 (Ceilândia), em 10 de abril. A primeira apresentação é aberta à comunidade, mediante retirada de ingresso gratuito na plataforma Sympla.

No centro da narrativa está o corpo como território de memória e resistência. A montagem aborda vivências negras, periféricas e diversas, trazendo à cena questões como racismo, identidade, gênero e construção de futuro. A ancestralidade surge como eixo condutor: um fio que conecta passado, presente e possibilidades de existência.

A criação e realização do espetáculo estão diretamente ligadas ao trabalho do Natural Rockers, grupo de break dance do Distrito Federal com trajetória consolidada na cena e forte atuação em projetos de base. Fundado em 2011 pelo bboy Zoy (Felipe Mendes), o coletivo acumula participações em importantes competições nacionais e internacionais e, nos últimos anos, tem direcionado sua atuação para iniciativas que aproximam a cultura hip hop de escolas e territórios periféricos.

Essa experiência se traduz em cena por meio de uma construção coletiva que articula diferentes linguagens e vivências. A direção do espetáculo é assinada por Romulo Santos, responsável pela concepção coreográfica e pela estrutura narrativa da montagem, combinando breaking com outras vertentes das danças urbanas em uma estética que equilibra técnica, identidade e expressão contemporânea.

Um dos grandes momentos da apresentação será protagonizado pela Bgirl Branca, artista tetraplégica que transforma a cadeira de rodas em extensão de sua expressão artística. Sua presença ressignifica o corpo na dança e amplia o entendimento de potência, acessibilidade e criação. Na coreografia final, todo o elenco dança sentado, em um gesto coletivo que desloca o olhar sobre inclusão: não como adaptação, mas como linguagem estética central. A força do projeto também está na trajetória de quem o conduz. Coordenador da iniciativa, Diogo Costa carrega no próprio corpo a história que hoje compartilha com os estudantes. "Foi na escola que eu tive meu primeiro contato com o breaking, e ali minha vida mudou. O que começou como curiosidade se transformou em propósito", disse.