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Projeto revitaliza paradas em Ceilândia com arte urbana

Por Mateus Lincoln

Ao longo de todo o mês de dezembro, nove paradas de ônibus de Ceilândia, no Distrito Federal, passaram por intervenções artísticas que alteraram a paisagem urbana da região.

A ação integra o projeto "Conexões Urbanas", que promove a ocupação do espaço público por meio de murais produzidos com a técnica do graffiti.

As obras estão distribuídas por áreas de grande circulação da cidade, que continua sendo a maior do quadradinho em termos populacionais, com mais de 287,1 mil moradores, segundo Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) referente a 2024.

As pinturas foram realizadas em pontos localizados nos setores Ceilândia Sul, Ceilândia Centro, P Sul e P Norte, formando um trajeto visual presente na rotina de quem utiliza o transporte coletivo.

A iniciativa foi idealizada pela artista e educadora Tainã Fulô e propõe a valorização da identidade negra a partir de diferentes referências afro-brasileiras.

O projeto e sua justificativa

Os murais apresentam figuras femininas associadas a elementos da natureza e aos biomas brasileiros, com destaque para o Cerrado, predominante na região.

As imagens dialogam com aspectos culturais, históricos e simbólicos ligados à população local, majoritariamente negra.

Dados da PDAD-A de 2023 indicam que 58,3% dos moradores de Ceilândia se identificam como pretos ou pardos.

As intervenções transformaram estruturas, antes destinadas apenas à espera pelo transporte público, em suportes visuais permanentes, integrados ao cotidiano populacional.

Cada ponto de ônibus passou a funcionar como um ponto de referência cultural, conectando memória coletiva, território urbano e pertencimento social.

Objetivos e apoio financeiro

A proposta busca aproximar arte e comunidade em locais de uso diário, sem restringir o acesso a espaços institucionais.

O projeto conta com apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF), principal mecanismo de fomento a atividades artísticas da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF).

O financiamento permitiu a execução das obras, a aquisição de materiais e também o planejamento das ações nos diferentes bairros contemplados.

A concepção do trabalho tem relação direta com a trajetória da artista e com o contexto sociocultural da cidade, região reconhecida como um dos principais polos do Hip Hop no DF.

"Pintar na Ceilândia é continuar a caminhada que já existe aqui. É conversar com o território e com quem constrói a cidade todos os dias", destacou Fulô.

Referências utilizadas nas pinturas

A linguagem do graffiti foi utilizada como uma forma de expressão ligada à história do movimento nas periferias urbanas, marcado pela atuação de jovens negros e pela ocupação criativa do espaço público.

A proposta dialoga com referências do pensamento panafricano, bem como com tradições africanas presentes na formação cultural brasileira.

As figuras retratadas nos murais representam mulheres em diferentes papéis sociais e simbólicos, como mães, moradoras da região e arquétipos inspirados em matrizes africanas antigas.

Para a idealizadora, "quanto mais periférico o território, maior a recepção positiva", explicou.

Ainda de acordo com Tainã, "a comunidade reconhece nas imagens algo que é seu: as cores, as raízes, o brilho e ainda o pertencimento", afirmou a artista.

Esses elementos visuais reforçam a relação entre cuidado, ancestralidade e preservação do território, estabelecendo uma narrativa acessível aos moradores e usuários do transporte público.

As intervenções permanecerão nos pontos de ônibus até que sejam realizadas futuras modificações estruturais pelo poder público da Capital Federal.

A artista e o contato com a arte

Com atuação há 16 anos, Tainã Fulô integra as primeiras gerações do graffiti feminino no DF. Formada em Artes Plásticas e com especialização em História da África e da Diáspora Atlântica, ela também é fundadora da Minas na Rua Crew, uma das primeiras coletivas femininas de graffiti da capital.

Seu contato inicial com a arte urbana ocorreu no longínquo ano de 2008, também em Ceilândia, onde desenvolveu uma trajetória ligada à educação, à produção artística e à cultura Hip Hop.