Por: Thamiris de Azevedo

Na pandemia, os pássaros estavam livres

Enquanto acontecia a pandemia, Isaura fotografava | Foto: Isaura Cruz

Foi durante o isolamento forçado pela pandemia da Covid-19 que a fotógrafa Izaura Cruz encontrou na paisagem cotidiana um caminho para atravessar a solidão e a ansiedade através de registros imagéticos de amigos com asas que ela fez. Da observação silenciosa da árvore em frente à janela do quarto, na Asa Norte, nasceu o livro “Da Janela”, que reúne registros de 55 espécies de aves fotografadas sem que ela precisasse sair de casa. A obra foi realizada com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

Em entrevista ao Correio da Manhã, Izaura conta que a experiência começou de forma espontânea, quando as medidas sanitárias a impediram de circular pela cidade. “Fiquei impedida de sair de casa. Eis que, diante desse cenário desolador, comecei a fotografar as aves que pousavam na árvore em frente à minha janela, uma árvore aparentemente comum, apenas mais uma na Asa Norte”, relata.

Segundo a fotógrafa, observar a árvore e os pássaros tornou-se um refúgio emocional. “Olhar para essa árvore, e fotografar os passarinhos que vinham visitá-la, foi um refúgio. Momentos de paz e beleza que fortaleciam meu espírito nesses tempos difíceis e de muita ansiedade dentro de casa”, afirma.

O que começou como um gesto pontual virou um ritual diário e, ao final do processo, revelou a diversidade surpreendente daquele espaço.

Para Izaura, a fotografia funcionou como poesia e aprendizado. “Esse contato com a natureza e a presença dos meus novos amigos, mais que me distrair dos problemas, estimulou em mim lições valiosas sobre persistência e esperança”, diz.

Momentos marcantes

Ela lembra momentos marcantes, como acompanhar a construção de um ninho por um casal de balança-rabo-de-máscara, e a frustração diante da perda dos ovos. “Fiquei triste, chorei. Mas, logo em seguida, lembrei que perdas também fazem parte da natureza, da vida e agradeci por ter vivido esses dias tão encantadores”, relata.

A fotógrafa ressalta que não interferiu no ambiente para atrair as aves. “Não coloquei frutas, nem playback [sons para atraí-los], nem nada. Só ficava esperando por elas”, explica.

Ações educativas

Além do lançamento do livro, o projeto prevê ações educativas, como rodas de conversa em instituições públicas, e a distribuição gratuita de exemplares para ONGs e projetos socioambientais do Distrito Federal. A proposta dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente os relacionados à saúde mental e à preservação ambiental. Para Izaura, a principal mensagem permanece simples e potente.

“Não importa o quão difícil a nossa vida esteja, o mundo continua repleto de beleza. É preciso aceitar essa beleza, fazê-la parte do nosso dia a dia”, diz a fotógrafa.

O projeto ganhou também o apoio do biólogo Rubens Matsushita, responsável pela consultoria científica e pela identificação das espécies, aproximando o olhar artístico da precisão técnica. À reportagem, ele informa que no total, existem 479 espécies do DF, e ressalta o trabalho de Izaura que conseguiu captar 55 delas.

“Eu considero um belo trabalho fotográfico e que demonstrou a importância de fato de que, mesmo isolados em casa, podemos nos reaproximar da natureza. Essa reaproximação torna-se uma reconexão entre o ser humano e a natureza”, avalia o biólogo.