Por: Thamiris de Azevedo

Diversas mortes suspeitas no presídio da Papuda

Familiares denunciam violência e maus tratos no sistema prisional do DF | Foto: Thamiris de Azevedo/Correio da Manhã

"Não queremos ser só mais um número", pleitearam as famílias dos detentos mortos no sistema penitenciário do Distrito Federal. Após a morte de Cleiciano Dantas, ocorrida em 30 de junho na Penitenciária da Papuda, sua esposa, Deborah Diniz, organizou uma manifestação em frente ao Ministério Público do DF (MPDFT), nesta terça-feira (15). O ato teve como objetivo denunciar as condições precárias e as suspeitas de maus-tratos dentro do sistema prisional de Brasília.

Ao Correio da Manhã, a esposa relata que foi recebida pela promotoria durante o ato, e houve um compromisso de investigar o caso e prestar esclarecimentos. Em nota à reportagem, o MP informou que a apuração da morte de Cleiciano está em curso. Segundo o órgão, foi realizada inspeção no Centro de Detenção Provisória (CDP), onde ele morreu. Na ocasião, foram ouvidos diversos detentos que tiveram contato com o falecido. Ainda, dois policiais penais foram afastados provisoriamente.

Relatos

Ao Correio da Manhã, foi denunciado que a “morte sem resposta concreta” de Cleiciano não teria sido um caso isolado. Neuma de Souza, mãe de John Pablo de Souza, lamenta a perda do filho e afirma categoricamente: “Ele não se suicidou”. Segundo a advogada da família, Isabela Neves, John foi recolhido ao CDP em março deste ano e, em junho, a família foi comunicada sobre sua morte.

“Destaco que essa unidade prisional é destinada exclusivamente a pessoas em prisão processual, ou seja, sem condenação. No dia 11 de junho, a administração penitenciária informou que o custodiado teria atentado contra a própria vida. Cinco dias após o ocorrido, veio a óbito nas dependências do Hospital Daher. Todavia, consta na certidão de óbito, emitida pelas autoridades competentes, causa da morte indeterminada. Isso reforça a necessidade de uma apuração rigorosa e transparente”, avalia.

Ana Paula Diniz conta que, em fevereiro de 2024, também recebeu a notícia de que seu filho se suicidou, depois de ser transferido do CDP para a Penitenciária II do DF (PDF II).

“Eu o visitei cinco dias antes de sua morte, ele até pediu para eu levar um doce maior para dividir com outros. Terminou o ensino médio lá dentro, fez estudo de livros e outras coisas. Ele fazia acompanhamento psicológico, tomava medicação para a ansiedade e depressão. Quando foi para o PDF II, um mês depois o mataram enforcado. Ele tinha marcas. Fiquei sabendo que na sexta-feira, antes do suicídio, ele tinha pedido atendimento médico para um agente penitenciário, e foi negado. Pegaram ele vive, me devolveram morto”, declara.

A reportagem procurou a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do DF (Seape) para questionar alguns nomes apurados. Em nota, a pasta informou que, sempre que há registro de óbito nas unidades prisionais do DF, é instaurado um Procedimento de Investigação Preliminar, e que esses procedimentos são conduzidos sob sigilo. A Defensoria Pública do DF confirmou que, só neste ano, nove mortes já foram confirmadas nas unidades prisionais do DF.